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segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Sonhos meus...



Os meus sonhos são encrespados como as águas revoltas, gélidas e salgadas.


São feitos de reflexos inatos, incontroláveis como as experiências de Pavlov.

Transmitem escárnio como a Gaivota de Tchecov, são santos e pecadores como o crime do Padre Amaro e por vezes sedosos e azulados como as lágrimas límpidas do Tamisa.


São gritos à autonomia e à liberdade apregoados por Leminski e, parecem um arco-íris como os olhos de Natassja Kinski.


São extensos, muitas das vezes tristes e pernoitados, tais prostitutas prostrada à beira da estrada.


Pobres e eternos lutadores como Capitães de Areia de Amado e feitos de palavras negras, como A Canção Desesperada de Pablo Neruda.


Devassos e lascivos como as Memórias de Uma Moça bem-comportada contados por Simone Beauvoir.


São miseráveis e prostituídos como as sarcásticas personagens de Victor Hugo e timbrados nas fragrâncias de Chanel nº5 de pau-rosa.


São vividos e compostos nas quatro estações de Vivaldi ou como Um ensaio sobre a cegueira de alguns Saramagos bem entrosados.


São corpos nus soltando flechas de cupido em busca de Musas e Graças e esculpidos em gelo por tesouras mágicas nas mãos de Eduardo, como num conto de fadas da minha meninice.



São simplesmente sonhos




domingo, 16 de agosto de 2009

Vem!


Vem ternamente trazer-me o teu coração, anda que a noite é calma e hás-de dar-me razão. Vem devagar, pé ante pé, sem medo. Dou-te a mão no escuro. Amo-te em segredo.

Tenho medo!

Não tenhas, hei-de dar-te o mundo hoje.

O mundo?

O mundo inteiro que trago no coração!

Choro compulsivamente a alma tem destas coisas, choro porque sei que longe ou perto estaremos sempre unidos.

Vem hoje ainda em rebate trazer-me o teu coração, porque quero ter-te aqui na minha frente para chorar a olhar-te. Quero ter-te só por um instante e sentir-te a olhar-me. Quero-te ainda aqui... e aqui estás... porque o querer é magia!
Vem!

terça-feira, 11 de agosto de 2009

No colo do vento


Deito-me no colo do vento, aconchego-me e sulco o seu peito de mel, sossego a calma e a ânsia que à muito me aflige.

E na planície do jamais, caminho de mãos dadas com o fogo do teu corpo!

Perco-me na chama das tuas palavras, bebo a tua língua nas palavras de amor que me dás!

Salpicas-me a alma de manhãs de nevoeiro, que traça em mim êxtases fabulosos de céus murmurando em uníssono.

Carinhos e destinos traçados além!

Corro à desfilada no teu verbo,

Abraço o teu desejo,

Mas não te encontro... como nos meus húmidos sonhos.




sexta-feira, 31 de julho de 2009

Ouve



Ouve! Não digas nada.
Escuta comigo os carros lá fora, as luzes a entrar pelas frinchas da janela, as prostitutas em cada esquina gastas do amor.
Ouve os gatos a lutar por não terem quem os ame.
Ouve as pessoas que dormem na rua porque ninguém se importa com as saudades que elas sentem de casa sem poderem voltar atrás.
Ouve a autoridade que oprime o espírito humano, a verdade que é varrida para as sarjetas.
Ouve igualmente os pervertidos que espiam jovens para se masturbarem atingindo desta bizarra forma a satisfação.
Ouve os corações destroçados das pessoas que respiram morte, que vendem a vida e deixam as sobras nos transportes.
Ouve como a insanidade cresce a cada minuto, as doenças aumentam, e o amor diminui.
Ouve a inveja dos egoístas que apenas se contentam com o teu infortúnio.
Ouve, não estás contente de estar aqui deitada comigo?

Texto: JC
Imagem: Google

quarta-feira, 29 de julho de 2009

Porque me fizeste nascer?


Fui nascido na penumbra de uma curiosa.
E quão difícil é nascer. Se o soubesse teria recusado a tal, e permaneceria para todo o sempre no teu doce e aconchegado ventre de mulher, minha mãe. Aí senti-me sempre seguro e protegido. Era eu, o genuíno, o verdadeiro embrião que se recusava a germinar.
Que doloroso é nascer, minha mãe.
Devias ter-me sussurrado, qual mundo me aguardava. Sim! Eu sempre te ouvi.
E quando tu prenhe, eu te ouvia cantar a “Senhora do Almortão”, sentia-me calmo, embalado e adormecia ao som da tua voz terna e confiante.
Mas devias ter-me alertado, como é complicado vir ao mundo.
Sabes mãe, o tempo é como um predador que corre atrás da sua presa e quando dei por mim, a lei da vida fez-me ver que já não era mais aquele menino que acariciavas e protegias.
Tornei-me homem rápido, ou melhor, um menino mais crescido, porque sempre segui fielmente os teus mandamentos e a minha essência ainda sonha e acredita neles.
Mas, quando neste menino surgiram os primeiros cabelos brancos, olhei por cima do meu ombro, e a saudade alagou-me o coração.
Devias ter-me dito que é difícil nascer, complicado crescer e insuportável viver.
Ainda ontem lembrei com certa nostalgia, aquilo que me dizias “filho, nunca cobices o que é dos outros.” Mas uma coisa é certa minha mãe, apenas tu me o dizias e ainda hoje me o dizes de modo diferente, mas eu continuo a compreender-te.
Sabes mãe, não vejo ninguém fazer o que me ensinaste. Não! Verdade! Sabes, não é este mundo que esperavas, que desejavas e enfatizavas.
Neste, no real, o caminho é longo, a estrada parece não ter fim, a jornada cansa. É uma estrada muito longa que me esgota cada dia que a percorro.
Sou uma flor fora de estação, uma árvore com as raízes soltas da terra que a alimenta, um planeta sem órbita á deriva em busca de um lugar, uma estrela que ofertou o seu brilho, enfim um homem perdido neste tempo e neste espaço.
Se eu pudesse perguntar ao tempo se ainda tenho tempo de esperar, de sonhar e de amar sem o tempo me levar? Mas, o tempo não tem tempo de esperar, de sonhar, nem de amar só tem tempo de passar.
E com o seu passar, vestiu-me uma máscara de desilusão, que tornou os meus olhos tristes.
E tu sabes que depois de tristes surgem e escorrem lágrimas quando vejo crianças que sofrem sem culpa, que morrem sem compaixão, doentes sem perdão, pergunto-me...
Porque me fizeste nascer?


Texto: JC
Imagem: Google