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quinta-feira, 12 de abril de 2012

Porque murcha o girassol?


Nove e dez minutos da manhã. Valeu a pena ter fugido da cama bem cedo. A fragrância a iodo do mar faz-me sempre bem.
Entrei em casa bocejando sem parar. Doíam-me os maxilares. Sentei-me no sofá do canto e no canto do sofá. Acabrunhado. Sentia-me triste. Sei que podemos ficar desgostosos e feridos com as palavras mais cruéis. É natural!
Caminhar dias e dias numa estrada sem fim com dúvidas que nos atormentam sem limite, sem dó.
Gerar feridas abertas no nosso coração, que nos lançam para um sofrimento bárbaro. Mas, nada aniquila tanto por dentro, como uma grande desilusão.
E se esse desapontamento vem de alguém que nos ocupa um lugar no coração, é como se as árvores estivessem completamente despidas, o campo integralmente deserto, a música sem melodia, a palavras sem significado, o coração sem pinga de sangue.
Torna-se num lugar de memórias antigas, que mais não fazem do que obrigarem a lembrarmo-nos de que o nosso coração, no fundo, no fundo, só a nós pertence.
Lancei um olhar lânguido para o fundo da casa onde se encontrava a estante de pinho com livros em desaprumo. Deixei-me invadir por breves instantes num enternecimento de lágrimas inoportunas.
Por vezes não basta o que alguém nos diz. Por vezes não basta que alguém nos tente compreender. Que tente lutar... Que despeje nas nossas mãos mil palavras. Não basta tentar. Tentativas. Tentativas que não nos tocam o coração. Um gesto, um beijo ou simplesmente um abraço consegue tirar-nos os pés do chão e flutuar sem asas no espaço.
No meio da desordem dos livros, escolhi um ao acaso e mergulhei naquele mar de letras!
Após percorrer várias páginas deixei-me ficar encostado ao ponto de interrogação de um parágrafo do livro “Os íntimos” Inês Pedrosa.
Penso que nunca compreendi o verdadeiro mundo das mulheres. Por esse motivo fiquei a pensar naquilo que tinha acabado de ler.

“… Porque tem de haver uma razão para tudo? Que razão assiste ao despertar da paixão?
As mulheres exigem explicações, não suportam a natural irracionalidade da vida. Queixam-se da previsibilidade dos homens, da sua incapacidade para a surpresa – sempre os mesmos gestos, sempre o mesmo sofá, as mesmas rotinas, os mesmos restaurantes -, nunca compreendem a decadência do desejo, ou antes, o pânico da prisão. Um dia um homem acorda e sente-se preso por uma mulher amada. Isso não quer disser que tenha deixado de a amar, apenas que a ama agora de outra maneira. O sexo gasta-se. As mulheres parecem não perceber que o sexo se gasta muito depressa. Talvez sejam mais hábeis com a imaginação. Ou com a mentira. O corpo de uma mulher adapta-se à mentira, como a tudo. O corpo de um homem é verdadeiro como um hospital. Nunca mente. Por mais que queira, não mente. Não sabe.”…

O mundo será um lugar melhor no dia em que as mulheres perceberem que o romantismo não tem de ser um acto diário para ser verdadeiro!
Que entendam que existem infinitas formas de mostrar amor, romantismo, paixão e humildade.
Algumas mulheres não percebem como são lindas como os lírios do campo. Outras não atingem que quando nos olham é como uma perversa tentação, uma forma de provocação, qual efeito para a abelha que procura o pólen num enorme girassol.
Mas por vezes a escuridão que nos talha a alma ressaca campos inteiros de girassóis, que sem vida se ajoelham junto da terra, sem nenhum encanto, com as ramas pesadas de sono roçando a lama fria da terra.

O girassol, murcha e a abelha despega-se da debilitada flor e vai procurar outra, e outra…
 

terça-feira, 8 de novembro de 2011

O gelo queima




Os meus lábios permanecem quentes, o coração enorme no meu peito apertado. Nos meus olhos, tenho ainda restos de luar que me inundaram nas frestas abertas das noites de chuva.
Eu abraçava-te enquanto tu me acariciavas a face fria. E foi sempre assim, até que nos deixámos afundar, ainda enlaçados, no pântano que nos cercou até ao sufoco. Dissipados no meio da cidade triste e lacrimosa apenas uma melodia dos fingertips baloiçava numa música carente.
Não, não foi sonho, as noites estiveram. Permaneceram cravadas no gelo das minhas mãos, e o gelo guarda. O gelo queima. 

Que o gelo se liquefaça velozmente e te banhe corpo e alma a água cristalina do meu amor.

5/11/2011

domingo, 10 de abril de 2011

Pode no entanto já ser tarde.

O que é a vida? Uma ilusão, uma sombra, uma ficção. E o maior dos bens é de pouco valor, já que toda a vida é sonho, e os sonhos não passam de sonhos.
Caldéron de La Barca












O ano de 1990 digeria-se velozmente, como querendo acabar com os seus derradeiros dias. Tinha sido um ano bondoso e ingénuo, tal como Johnny Depp no papel de Eduardo Mãos de Tesoura. Para além de cândido, foi um ano que passou sem deixar rasto. Esvaiu-se nos dias e meses sem grande interesse.

De cabelos rebeldes e molhados, olhos da cor de azeitona e pele albume, Ana Patch parecia ter saltado de uma tela do pintor francês CHANTRON.

Dona de uma fantasia sem limite trabalhava na fábrica do pensamento, na secção da imaginação.

Tinha a seu cargo os sonhos eróticos de milhares de portugueses acima da idade regulamentar, uma vez que antes dos dezoito anos era interdito sonhar com determinadas temáticas.

Ana, já era adulta. Tinham decorrido uns céleres dezanove anos. De uma beleza apática, sentava-se finalmente em frente do sistema central da alucinação e com os olhos impassíveis na consola da ficção. Acendia um cigarro para entreter os dedos e queria uma ilusão.

Antes, um amigo arrumou-lhe um lugar pelo departamento das aspirações políticas, mas cedo percebeu que não tinha jeito para mentir, nem para administrar.

Preferia de certo modo acompanhar as pessoas nos seus tempos de lazer, proporcionar doces ilusões de felicidade.

Prostrada na cadeira, os dedos dormentes não cessavam de calcar as teclas. Os olhos irados de esgotamento varriam as estradas virtuais em busca do eudemonismo.

Se dois amantes se zangavam, nessa noite era sabido que sonhariam um com o outro, e com os melhores momentos que tinham passado juntos. Amanheciam mais tranquilos, com um sorriso apaziguador nos lábios, e sem se lembrarem como, já tinham feito as pazes.

Por sua vez, Ana ultimava as pazes com Deus. Mas o cansaço começava a tolher-lhe o corpo. Já sobrava noite no luar da sua vida. Começavam a faltar estrelas no céu da sua incessante ilusão. Muitos sonhos desfeitos e sem guarida trouxeram dias vestidos de noite. Mas nunca desistiu. Certo dia a base de dados devolveu-lhe uma bonita e tristonha jovem. A solidão espezinhava-lhe os dias. Incessantemente tentou encontrar alguém que pudesse ajudar a bela jovem. Noutro lado daquela estrada sem fim, um rapaz chorava pela perda do pai.

Ana elaborou um programa para desviar aquelas lágrimas, para que corressem noutra direcção. A água daquelas lágrimas regaram a jovem ajudando-a a permanecer viçosa.

“Não murches ainda mais a minha vida. Fica a promessa que quando te encontrar te amarrarei com correntes roubadas à lua.” Disse-lhe o rapaz através de e-mail.

Comia um pedaço de pão, nunca desviando uma nesga a atenção do luminoso monitor, até novo ciclo recomeçar.

Esta estrada virtual cheia de muros de um lado e do outro, que nos permite esconder tabus e preconceitos, dá-nos a protecção segura e necessária para termos coragem de desabafar anormalidades que não conseguimos quando enfrentamos os olhos a quem nos dirigimos.

Quando fazia a ronda tal vigilante que tenta encontrar algo de anormal no seu percurso, muitos pensamentos lhe passavam pela mente e porque não, pela alma.

Será que esta espécie de diário que tanta gente passou a saborear, é de facto um “gritar” da dor que todos temos vontade de expelir?

Será que com o passar dos anos, do progresso somos também cada vez mais infelizes? Somos cada vez mais isolados?

Num canto do monitor assistiu a um casal de idosos falarem dos netos e sentiu borboletas a esvoaçar entre as suas sábias palavras.

Estava na hora de fazer correr outro programa. Umas linhas de código dirigidas aos menos jovens.

Aprontou o ébano e o carvão das esperas e das despedidas.

As viúvas passaram muitas vezes a sonhar com os seus maridos sumidos, e com o futuro risonho dos filhos e dos netos, uma preparação suave para a partida breve.

Mas o que lhe dava mais prazer era construir novos casais. Procurava na base de dados horas sem fim, os interesses e ambições de cada jovem, até encontrar um par que fosse a combinação perfeita. Depois, punha-os nos sonhos um do outro durante várias noites seguidas, sempre em cenários paradisíacos, praias, biquínis, sol e mar. Os sonhos iam evoluindo suavemente, mudando de cenário, desapareciam por um mês, para reaparecer em seguida.

Até que um dia, por algum acaso, os dois protagonistas se cruzavam na rua, nos transportes, ou se encontravam numa festa.

Surgia de imediato uma cumplicidade, uma empatia que eles não sabiam a que deviam atribuir. Apenas sabiam que se sentiam terrivelmente bem um com o outro, como se fossem velhos amantes. O primeiro toque, já não era uma surpresa, enchia-os da certeza do amor eterno. E isso, mais que tudo, deixava-a feliz.

Os anos passavam por ela como raios de luz e cada ano que passava, evaporava-se a sua pertinácia. De pretensiosa consciente, a pedante aluada, de bonita a vulgar e de mulher cobiçada, a velha avarenta. Sem ambição e com sonhos a preto e branco, procurava a expectativa que mingua proporcionalmente ao galopar do tempo.

Sentir o dia a esvair-se, com os dedos dos pés massajados, o humedecer dos lábios por uma bebida ordinária. Daquela que acidifica o estreito, com borbulhas.

Ana será a partida para novas definições de estilo. Gosta do que as coisas deixam de erótico. Quer seja a vida real a ensinar, quer sejam os sonhos a preto e branco a transformar tudo numa sopa de letras partidas, aquecidas num pequeno fogareiro a petróleo.

Aprendeu a repousar em cima da almofada da esperança, e que esta a ajude a esperar. Faz sentido, porque as coisas têm mesmo o seu tempo de acontecer. A sociedade evolui, porque as pessoas gostam de se confrontar. E devemos saber esperar, pois tudo vem no momento próprio. Nem antes, nem depois.

Por isso, espera com as mãos debaixo dos sovacos, e cumprimenta o tempo que passa com um sorriso, entremeado com uma lágrima. É a sua maneira de sorver a energia dos minutos, das horas, dos dias. Ela gosta que lhe diagnostiquem pequenos problemas existenciais em função do que faz questão de mostrar. Se é o que sempre foi, e nunca será aquilo que os outros querem que ela tivesse sido, para quê forjar cenários de extinção. Mas é um mundo de finos cabelos soltos. Basta um acariciar descomprometido, duas rajadas de vento em final de tarde, e a bruma cai. Deixa-se então arder no ar quente da indecisão, e faz de si também uma espécie de nevoeiro impenetrável. Parou uma fracção de segundo e por cima do ombro olhou o calendário gregoriano que pendia torto da parede de manchadas de verdete. Semicerrou os olhos e com alguma dificuldade apercebeu-se de que decorria o mês de Março de 2011.

Envolta na densa neblina espera ainda encontrar um dia, na imensa base de dados, o par ideal para a sua vida, aquele que irá sonhar com ela noites a fio, e acordar um dia com a certeza de ter descoberto o seu amor.

Pode no entanto já ser tarde.

sábado, 17 de abril de 2010

O principio do fim


Este texto não pretende ferir susceptibilidades é apenas um desabafo… Quem aqui se rever, acreditem que é apenas mera coincidência.

Porque tudo tem um fim?
Não direi que de forma propositada, mas por circunstâncias de momento, tenho vindo a desligar-me um pouco por falta de tempo deste local virtual.
Leio com carinho todos os comentários que de forma tão afectiva me deixam nestes espaços onde percorro os recônditos da minha vida. Quase não tenho lido tempo de retribuir… desculpem-me!
Talvez de forma inconsciente seja um cortar do cordão umbilical que me tem mantido a todos. Que me mantém vivo.
Todavia o cordão que une duas vidas é sempre amputado.
Acredito que alguns dos que habitualmente por aqui passam, não queiram que seja assim. Nem eu tenho a certeza de querer que seja assim. Quero acreditar nas pessoas, mas por vezes vagueio por “ai” e não sei o que pensar…
Do voo da borboleta diz-se que é belo. E efémero. Como a vida.
Assim da vida se possa dizer que, por curta que seja, cumpre a sua finalidade. Tal como o voo da borboleta.
E qual é a finalidade da vida? Não perguntem que isso já não sei. Mas hoje deu-me para aqui.
Embora sempre me dissessem que este Sonhador era "autêntico", há muito mais em mim do que ele. Este é um mundo fantástico e simultaneamente um orbe bem perigoso.
enho pensado bastante da atitude a seguir. Concluí que deixar de realizar algo que me presenteia, por atitudes que aqui descrevo, não será certamente a melhor opção, porque aqui (mundo virtual) conheci alguém maravilhoso  e é sobre a penumbra da minha sombra que a paisagem segura o horizonte cansado das minhas mágoas.
É na miragem do meu ténue corpo que mergulho toda a minha angústia.
É nas águas límpidas do meu coração que eu recordo os meus tristes sorrisos como crianças que em plena imaginação agarram o arco-íris.
Deixemos que os cães ladrem, porque a caravana irá sempre passar.
Nem que seja apenas para mim, que o sonho perdure.


sábado, 10 de abril de 2010

Eis a razão pelo qual me sinto, ninguém.


Hoje não me apetece filosofar sobre a transcendência dos egos, sobre mentes controversas, amizades coloridas ou descoloridas, pálidas ou seja lá o que for!
Cansei-me de planar a grande distância da realidade, e quero mergulhar na vulgaridade. Porquê? Quiçá no fim do texto encontrem a resposta.
Para começar vou praguejar: Que raio de tempos são estes, que nos humedece os neurónios e nos deixa em curto-circuito?
Dai-me paciência, meu Deus. Deus! Mas as minhas relações com a divindade não andam grande coisa, por isso corto o Deus. Fico só com a paciência, ou antes sem ela…
Isto tudo para dizer que não me sinto sozinho, sabes? Sinto-me isolado.
Tenho nos ombros uma vida, sentida e muito sisuda. Hoje pergunto-me se valeu a pena?
Para que estarei aqui a gastar palavras? Se quando falo não me escutam?
Quero lá saber, falarei com a minha companheira, que me segue para onde vou e não vou. Seja dia ou seja noite. Necessito desabafar. Preciso que alguém escute a minha dor, a minha indignação. Perceba a crueldade da nossa existência. Entender o quanto somos insignificantes. Atingir o verdadeiro sentido de existir.
Mas que digo eu? Para que me estou a cansar com frases que ninguém irá ler, com pensamentos que não serão sentidos, palavras que não querem ouvir.
Julgo que a semana passada coloquei uma flor a tingir um frasco de água… a cor é quase imperceptível, embora roce o afogueado, como se me avivasse a memória dos sinais de perigo.
Parece lamentar-se em sórdidos silêncios do meu desleixo, ultimamente. Recordei com saudade a orquídea que colhi num fim de tarde fria e que guardei com todo o carinho e amor, num jarro, num recanto escondido do meu coração.
Há quanto tempo não mudo a água à jarra?
Que vergonhosa patetice! Irá certamente murchar.
Corro como louco todos os cantos do meu coração à busca dela. Quero mudar-lhe a água.
O silêncio principalmente hoje dói-me e não tenho com quem desabafar.
Liguei o rádio na M80. A música soltava-se com o mesmo fervor do meu coração, em busca da “esmeralda escondida”.
A Ilídia Maria, que por acaso conheço, porque foi minha colega de liceu, berrava “telepatia” contra os meus pobres tímpanos. Quando a convenceram que sabia cantar, mudou-se para zona fina e mudou o nome. Lara Li é mais in!
Desesperado por não encontrar a minha flor, apesar da telepatia, peguei num copo que enchi de Jack Daniel’s. Escolhi este porque é destilado no Tennessee e por isso deve ser bom. Apenas isso. Ao fim do segundo copo, a vista turva e a língua a esbarrar nas palavras voluptuosas e controladas pelo álcool, ao atirar um “bom dia” a um vizinho.
Porque será que o álcool nos desinibe os sentidos e nos aveluda a alma com uma auto-estima, inebriante?
Eu falo com a orquídea, sabias? E ela falava-me tão docemente, até que se fechou em botão.
O amor e a amizade são uma flor frágil e por vezes desleixamo-nos. Deixamos que a água pútrida petrifique as recordações boas e as reduza a um punhado de coisa nenhuma.
Sento-me numa cadeira tal profeta desmoralizado.
Apetece-me de novo praguejar: Raio, porque será que o álcool e os meus olhos, não se dão?
Penso que só os animais ditos irracionais conseguem vislumbrar os verdadeiros profetas. Nós, nem os pressentimos, e passamos-lhe por cima nesta correria desenfreada feita de rotinas, que faz dos nossos dias, autênticos cromos repetidos, onde nada acontece que nos ajude à inovação. Mas, nem um cromo já colecciono.
O rádio continua a tocar na tentativa de me absorver. Agora debita alguns decibéis de “Everybody Hurts” dos “REM”.
“Well, everybody hurts sometimes, everybody cries…”
Não te isoles. Tapa os ouvidos e não escutes a estrofe de gritos, lamentos, suspiros, tristezas e até sofrimentos, queria somente poder abraçar, amar... Vem, preciso do teu cheiro, dos teus braços eternos onde adormeço os meus medos ancestrais.
Não escondas as tuas pétalas de mim, minha orquídea selvagem. Dá um tempo aos minutos. Dá uns segundos às estrelas que foram dormir e dá a tua existência à minha loucura.
Porque alteaste entre nós essa muralha invisível que apenas o olhar da alma consegue transpor. Há um estranho silêncio na tua voz.
É nesse silêncio esquivo que eu te encontro e te falo sem te ver, tal como o vento o faz quando rompe atrevidamente pelas brechas das janelas do meu quarto.
Que pateta! Achas mesmo que alguém… escuta?
Sabes, também não importa, porque sei que embora o negues, as tuas pétalas aprumam-se de cor para me ouvirem.
Por favor deixa-me encontrar-te para que te banhe com a água das minhas lágrimas e assim ajudar-te a ficar viçosa. Não murches a minha vida.
Fica a promessa que quando te encontrar te amarrarei com correntes roubadas à lua.
Ouvirei as palavras que quisemos dizer, mas que não dissemos, experimentarei, os amores que compusemos no lirismo dos nossos sonhos, sem pressa.

Não devemos ter pressa. Sabes? Não vale mesmo a pena termos pressa. Quem sou eu? Quem és tu? E ele? E ela? E aquela multidão que corre para conseguir um lugar sentado no comboio?
Certamente muita gente, seguramente ninguém.
Porque a premência que tenho agora é que o tempo aniquile o próprio tempo.
E sabem porquê?
Hoje, que não me apetece filosofar, queria antes rezar, mas já nem rezar sei.
Hoje o meu colega A.N. foi vítima de um AVC e está em coma profundo. Aos vinte e oito anos de idade foi embusteado pela seriedade da vida.
Casou há cerca de um ano e a mulher carrega no ventre, o fruto de uma união a dois, com sete meses.
Não fui capaz de explanar este acontecimento, sem ter viajado nas asas do sonho, porque em apenas dois dias, sei lá eu, se por falta de água, vi fenecer um cravo e murchar uma orquídea.
A vida tal como o amor deviam permanecer imarcescíveis.

Eis a razão pelo qual me sinto, ninguém.

Escrito em 08-04-2010

PS: A.N. faleceu hoje 09-04-2010 às 23:12 horas.



Amigo, Paz à tua alma.

sexta-feira, 12 de março de 2010

A nossa primeira vez


"O desejo exprime-se por uma carícia, tal como o pensamento pela linguagem "
Jean-Paul Sartre


Acredito na força da escrita. Confio no seu poder. E só concebo escrever se me rasgar até ao âmago para o fazer.
Não condeno quem escreve apenas em busca de beleza estética.
Não sentenceio quem escreve com base na invenção pura, sobre algo que nunca sentiu.
Todavia, para mim a escrita é um sistema espinhoso, tem de começar por uma dor interior.
Eu não uso as palavras para escrever sobre mim, mas entrego-me nas palavras que escrevo.
As minhas figuras são fictícias mas tão reais, que quem as lê, pode pensar por vezes estar perante um espelho.
As personagens não existem, mas vivem aqueles sentimentos e sensações.
A solidão, a tristeza e o desespero existem e eu conheço-os.
Conheço-os bem.
Porque eu próprio os vivi e vivo. E este texto é figurino. Sei que alguém irá pensar e dizer… “Não é, que me revejo aqui?”

Não quero esquecer o dia que senti pela primeira vez as minhas mãos em ti, percorrendo todo o teu corpo numa carícia de desejo.
Na penumbra do meu quarto, o teu corpo desarmado encostei à parede.
De olhos fechados de semblante calado, inspirava o teu perfume que dançava no ar num misto eterno inebriar.
Teus cabelos espalhados em desalinho contrastavam com o níveo do meu pensamento.
Acariciei as tuas pernas de mulher como curvas sinuosas de um destino ignorado.
Tu cedida. Suave. Tão perto, que podia acariciar a tua mente, contornar a tua face, tornear os teus lábios, afagar os teus cabelos e sussurrar ao teu ouvido, frases desamarradas sem mágoa e sem lamentação.
Quis dizer-te o que nunca disse.
Dizer que me libertei, das algemas do passado, que quero viver a teu lado.
Que para sempre serei, mais verdade que sonho, mais refúgio que fuga, mais refúgio que adeus.
Os meus olhos desejosos de ti penetraram os teus e disseram o que os lábios não conseguiram dizer.
Os corpos fundiram-se numa valsa erudita de compasso binário composto.
O tempo correu veloz, sem horas, minutos nem segundos. Apenas um fragmento e nada mais. A nossa primeira vez, não esquece, porque existem muitas primeiras vezes. Mas, aquela nossa primeira vez terminou com um gemido de amor.

12-03-2010 (cerca das 15:00 horas, porque a hora é importante para mim e para alguém.)

domingo, 7 de março de 2010

Hotel Califórnia


Ontem saí à rua, de noite. Enveredei à esquerda na via principal e dei por mim numa estrada escura e deserta. O vento fresco penetrava pela janela do automóvel e acariciava-me a face esquerda e revoltava-me os frugais cabelos que me restam. Passei alguns quilómetros às voltas comigo mesmo, modesta companhia. Não vi rostos nem pessoas. Não vi nada. Apenas a solidão dialogava comigo o que me impedia de adormecer. Este é meu mundo. Um orbe em que a monotonia sou eu.
Um odor putrefacto emergia à arredonda do vento. Ao longe avistei uma luz de néon que tremia como eu de frio.
Quanto mais me aproximava da trémula luz, mais a minha cabeça rodopiava, causando-me náuseas. A vista começou a ficar turva. O suor gélido começou por me inundar primeiro as têmporas e de seguida todo o rosto.
A sensação que sentia era inesperadamente estranha. As pingas de suor cada vez mais abundantes inundavam-me a vista impedindo-me de ver a estrada. Encostei o carro numa berma. Desliguei o motor e abri mais o vidro da janela para que o vento frio me despertasse daquela infernal sensação. Ouvi o zunido da luz do candeeiro de rua que me cumprimentava com a sua melodia. Senti o roçar de algo no arbúsculo e vi de soslaio o brilho de olhos por entre arbustos. Aqueles olhos fixavam-me. Eu, contrariamente soltava-me do mundo real. Uma aragem trouxe o som longínquo de um comboio que passava rasgando a noite e retalhando o silêncio. Tinha de sair do carro e dar uns passos para despertar daquele letargo que me estava a condicionar a consciência.
Caminhei alguns metros, passos, de uma tontura perturbante. A custo cheguei a um banco de madeira que ali pernoitava indiferente ao escuro, ao frio e a mim. Numa conversa muda, queimámos cigarros e mais cigarros. Desabafei com ele sonhos, invejas, segredos e devaneios. Após algum tempo de parlatório comecei a sentir-me um pouco melhor. Estava a fazer-se tarde. Já a Lua nos sorria alto e ambos tínhamos sono. Ambos havíamos perdido a noção das horas e o céu já estava a fechar.
Logo de seguida começou a chorar e dele descendiam gotas que nos acertavam mas eram mornas, suaves e caíam suavemente como carícias.
O cheiro da terra molhada embalou-nos e tapou-nos com um pedaço de jornal da manhã que um qualquer mendigo deitou fora sem ler, amarrotado.

Lá estava ela na entrada da porta. O brilho do néon já não me afligia e vi na perfeição a silhueta da mulher vestida de vermelho. Um leve odor a sândalo prendeu-me as narinas. Passou a seguir-me e a acariciar-me o nariz.
Ao longe ouvi um sino, o sino da recepção. Pensei para comigo: “Estarei no paraíso ou no inferno?”
A mulher de vermelho acendeu uma vela e quis acompanhar-me até ao meu quarto.
Percorremos um corredor longo também trajado de vermelho. Ouvia vozes que se soltavam dos quartos por onde passávamos. Vozes afinadas, melódicas que me diziam:
“Bem-vindo ao Hotel Califórnia. Um lugar encantador. Um rosto encantador. Há muitos quartos no Hotel Califórnia que pode encontrar aqui em qualquer época do ano.”
A minha mente estava perturbada pela magia daquele local, pela beleza da jovem mulher que parecia deslizar as curvas do seu vestido vermelho sobre a carpete que cobria todo o corredor que parecia não ter fim.
Mais alguns metros, ela meteu-me uma chave na mão. Sorriu e deslizou de novo até ao fim do infernizo corredor.
Um homem de estatura descomunal, trajado de fraque preto veio ter comigo junto à porta do meu quarto e segredou-me: “Boa noite… Sou o porteiro. Desculpe, mas não dê muita veracidade ao que diz a recepcionista. Ela é possuidora de uma mente depravada. Finge ser quem não é… não passa de uma estéril de espírito que se desloca de Mercedes.
Assustado, eu queria entrar no quarto, mas ele agarrou-me o braço com a enorme garra e com um sorriso sarcástico continuou: “Ela tem vários homens, a que chama de amigos, mas que não passam de prisioneiros do seu insaciável desejo. Tenha cuidado, porque fará de si o mesmo…
Eu ainda mais apavorado, tentava desprender-me da prensa que me tinha algemado.
“Ontem à noite vi os lindos homens, dançarem no jardim suados como numa noite tórrida de Verão. Alguns dançam para lembrar, alguns para esquecer.”
Soltou um riso cavernoso, afrouxou a garra e desapareceu por uma porta que se entreabriu.
Finalmente entrei no quarto. Estava atordoado. Que fazia ali?
Passei as mãos trémulas pela pedra fria que vestia as paredes e senti a sua textura rugosa, porosa, como pele.
Peguei no telefone, chamei o Gerente e disse-lhe: “Traga-me vinho por favor”. Precisava beber…
Absorto, ouvi bater à porta. Com voz de comando disse: “Está aberta”.
Um garçon com ar enfezado e franja empinada colocou a garrafa no gelo com mestria.
“Sirvo?” Indagou com uma máscara de sorriso. “Não! Obrigado…” Ainda não tinha finalizado a frase e já ele rondando nos calcanhares se encaminhava para a porta. Com a mesma máscara colocada na face disse-me colocando o queixo no ombro: “Já não tínhamos este espírito aqui desde 1969.” Não entendi.
Peguei na garrafa e atirei os ossos para o leito que me desejava. Sem respirar engoli metade do néctar que me anestesiou totalmente.
Por vezes era despertado no meio da noite com as vozes que soletravam: “Bem-vindo ao Hotel Califórnia. Um lugar encantador. Um rosto encantador.”
Algumas horas depois abri os olhos pegajosos e turvos e descortinei a mulher de vermelho, que me disse soprando ao meu ouvido: “Bom dia estrangeiro. Dormis-te bem?”
Completamente zonzo olhei pela primeira vez para o tecto espelhado. Devolveu-me uma imagem de um homem esgotado e extraviado do seu rumo.
Ela, colocou uma garrafa de rosé no gelo, acenou-me um adeus provocatório e sem mover os lábios escarlates, disse: “ Todos nós somos prisioneiros por nossa conta.” Desvairado, abri a porta do quarto, corri a passadeira infinita do corredor até chegar a uma área que destoava do cenário. Uma porta semiaberta, de cor alva e onde assomava um ar fresco que me devolveu um pouco de estimulo. A medo empurrei-a, e no centro de um quarto todo branco, jazia uma criatura linda e delicada. Nua e feminina. Em posição fetal, notavam-se as cicatrizes de lutas tatuadas na pele suave. Cabelos escuros, lisos, serpenteavam-se pelos ombros. Os olhos negros abriram-se lentamente e miraram-me, como se tivessem captado a mesma essência que eu mesmo captara ao deparar-me com tal etéreo anjo. Ao segundo olhar tomei consciência de que era realmente um anjo… um anjo que perdera as asas, pela salvação de alguém.

O dia brotou cálido. O barulho que dormiu comigo acordou em alvoroço. O meu banco amigo tinha-se calado. Estava imóvel. Mudo. Os meus olhos tinham dificuldade em olhar para o despertar da manhã.
Mas amanheceu. E nesse dia amanheceu tarde, mais tarde que de costume.
No caminho de volta para casa vi as árvores nuas como se tivessem sido despidas à pressa. Já nem pressentia a passagem dos comboios e os candeeiros da rua apagados, sozinhos ao longo do passeio, já não me cumprimentavam. Nada era o mesmo. Ninguém, mas ninguém sabia o que se tinha passado. Nenhum ser ouvira aquelas estranhas vozes que me martelavam a mente… “Bem-vindo ao Hotel Califórnia. Um lugar encantador. Um rosto encantador.”
A última coisa que me lembro, foi a corrida para a porta para fugir dali e voltar ao meu fadado destino, quando o porteiro com a sua voz sepulcral, gritou: “Nós estamos programados para receber pessoas como tu. Podes assinar a saída as vezes que quiseres, mas nunca poderás sair daqui!”

Texto inspirado no tema “Hotel Califórnia” dos Eagles.

segunda-feira, 1 de março de 2010

Conversa em Braille



Perdidos no tempo, num dia de Fevereiro, qualquer um. Um apartamento nos subúrbios de Lisboa. Um apartamento qualquer, em qualquer subúrbio de Lisboa.
Uma vida. Pode ser qualquer vida… Um casal. Qualquer um…
Será que alguém que me lê, qualquer um, se identifica com esta conversa?



Ela: Nós? Nós estamos comodamente casados sem…

Ele: Ias dizer sem paixão, mas não acabaste a frase. Lançaste a ravina para me atiçares o cão do teu desespero? Mas nem esboçaste a intenção de te lançares. Porquê? Por acordo?
És uma mulher difícil, uma ponte fugida de mim. Chega-te mais, até à boca de mim e vira-te, assim… de frente.

Ela: Eu? Uma mulher difícil? Essa é boa! Sou apenas uma mulher, não um teorema! Sim, aborreço-te como um borrão de rancor, brutalmente a apartar os nossos corpos, tornando a cama num golpe de frio. Claro que te aborreço, como um hábito ou um vício aborreço-te! Aborreço-te?

Ele: Agora que a sineta da pergunta tocou estrepitosa como solavanco sucinto tenho alternativa?

Ela: Não, não tens. És tu que tens a chave, vais abrir apenas um alçapão a céu aberto.

Ele: Não, desta vez a resposta não pode continuar à espera. Não há entendimento possível entre o eu que te ama, e o eu que precisa arrancar-te da alma.

Ela: Atrever-me-ei a tanto? A confessar que não sei amar? Queres tudo, é isso? Tu queres tudo, incluindo a fúria.

Ele: E a paixão não quer tudo? Talvez o problema é que acreditas na paixão como um auto-de-fé.

Ela: Pois acredito. Se não acreditasse estaria aqui a teu lado mesmo que desentendendo-te como desentendo? Viver o que vagarosamente morre?
Sei que vives distraído de mim. Não perguntas, não inventas desculpas. Nada!

Ele: Não pergunto? Desejas-me? Ou optas ser desejada?

Ela: Basto-te como ampola de soro que te vai nutrindo quando me possuis. Não me bastam as tuas mãos de compromisso, o teu sexo de compromisso, a tua boca de compromisso.

Ele: A mim simplesmente basta-me sem paixão. A ti não. Queres o absurdo. Queres a perfeição não percebes. Mas, a perfeição não existe.
Chega-te. Cinge-me mais, assim. Para não me sentir só. Para não te sentires só. Para partilharmos cegamente o inóspito. Chega-te mais.

Ela: Mas, vale a pena?

Ele: O casamento?

Ela: Sim.

Ele: É um nada, uma raiz aberta, intacta na sua inutilidade, que me cansa. Todos estes anos. Preservá-lo é mentirmos sobre a própria mentira.

Ela: Queres que comece de novo a recordar-te? Lembras-te daquela tarde em que nós… Eu a menina que te mirava, que te beijava os teus olhos azuis? E tu, o dócil jogador de basquetebol. Claro que nunca percebeste! Eu era os teus olhos azuis.

Ele: E tu lembras-te do teu arrojado decote? Também eu soube logo, da primeira vez que te vi, que jamais voltaria a ter semelhante visão. Relembro que para além do teu rosto não me perguntei quem eras. Um nome, e logo um corpo que me tomou nos braços. Um corpo cuja história escapava à minha. Um corpo que me tomou nos braços um corpo que se deixou tomar num apartamento nessa tarde.

Ela: Chega-te. Chega-te mais. Não! Não te vires. Não acabou tudo, mas algumas coisas extinguiram-se. Por vezes ainda falo contigo dentro da minha cabeça. Invento-te ainda. Continuo a inventar-te. A esperança é algo que inventamos. Uma ficção, e uma falha. Aquela tarde foi a nossa vida exactamente como poderia ter sido.

Ele: Isso é uma acusação a mim mesmo? O que queres que te diga? Acuso-me do que há em mim de amante exilado? Não. Peço-te, isso não. Deixa-te estar assim, não me tires a possibilidade de ser náufrago. Enrola as tuas pernas nos meus braços. Não quebres a única coisa familiar nesta casa que é o nosso corpo.

Ela: O teu amor… o teu amor, que digo eu? O teu desejo por mim não é um desejo. É uma guerra desmantelada. Um protesto contra qualquer coisa. Sou a tua desilusão? Queres jogar às realidades?

Ele: Talvez. Queres que me vá embora para poderes inventá-las? Será isso que queres? Será isso o que eu quero? A esperança é o último reduto, como uma trincheira em fogo. Inventamos. Queres que te beije? A esperança é mesmo uma falha. Vou-me embora. A vida é assim e não há outra. Só reconheceria totalmente intolerável que me dissesses: desisti de tantas coisas por tua causa e não valeu a pena…

Ela: Não me pareces assim tão vulnerável mas, não! Não digo. Sei que terás saudades minhas enquanto continuares a inventar-me naquela tarde em que nós… é estranho o tempo… longos anos cavalgaram em minutos e há minutos que se alongam até parecerem horas.

Ele: Como os minutos em que crias empatia com uma personagem fictícia?

Ela: Sim? É o que eu sou para ti? E agora que começo a vestir-me, o tecido do meu vestido é a última página do livro?

Ele: Inferi no horizonte de forma demasiado rápida o recorte da ilha a que nos dirigíamos ver-te agora alisar o cabelo é um agradável interlúdio. Uma sutura de arquipélagos. Um casamento que falhou, como se o mar se partisse. Deixa-me tocar-te. Deixa-me escutar os meus dedos pedregosos ainda tocar-te.

Ela: Para me converteres em personagem de ficção de um livro em Braille? Não! Não basta estares nu para poderes amar-me!

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Amor de perdição


Perdido de mim, como habitualmente, sento-me…
A perca de um familiar é agressiva, a perdição é ainda maior…
Perco-me em monólogos mudos numa qualquer mesa de uma qualquer esplanada. Soltam-se fumos. Um acastanhado de um cigarro mal queimado e outro cálido e odorífero da chávena cheia de café diante de mim.
Contemplo a minha mente a fluir pelo teu corpo. À medida que esta melodia invade o ambiente, fico estático... hipnotizado...
Sobressais do breu que me envolve. A tua áurea rasga a escuridão do cenário como uma estrela cadente em noite de Lua nova, como gritos a rasgar o silêncio de morte.
Arrefece o café enquanto batem os dedos redondos no tampo ao som de uma música surda tocada pela orquestra que, simplesmente, não existe.
Mas eu oiço o preguear dos tambores ao som do coração. Rufam como exércitos de aves rumo a norte, em convulsões poéticas. Recordo o teu corpo que copia as chamas da fogueira que nos aquece.
Liberto a mente, sempre em espasmos de lembranças e vejo-te a dançar solta como se não pertencesses a qualquer parte.
Pára a música, cai o pano e retorno desse mundo à parte.
Como é lindo o teu bailado. Balanceias o ventre lentamente de olhos cerrados e com um singelo sorriso nos lábios. Serpenteias as tuas mãos ao som da música. Danças como folhas ao vento na alvorada do meu Outono.
Morre-me o cigarro aos poucos na minha mão. A cadeira vazia ao meu lado confidencia-me a tua distância.
Puxa-me para a realidade de hoje.
O vento folheia o jornal que fala de notícia de tudo menos de ti. O telemóvel inerte no tampo da mesa não toca. As horas não passam. Venha uma lua nova que me devolva a ti.
A chávena agora vazia continua a arrefecer. Abraço-a na tentativa fútil de prender o calor, mas este foge. Volto a abraça-la na tentativa de aquecer as mãos e o coração gélido da ausência do amor, de ti.
Nem te vi partir… volta depressa.
O tempo corre tão rápido que tenho medo de não ter o meu tempo para te amar como gosto e sei amar com a totalidade do meu corpo, da alma e do coração.

Escrito hoje às 21:00

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Despe-me





Não sei o que sou, nem sequer porque escrevo.
Apenas sinto esta carência dentro do meu ser e cravada no meu coração.
Preciso catapultar o pensamento, embriagar-me com as emoções que transformo em palavras.
Existo, penso, mas não encontro a simbiose desta essência.
Conheço os meus limites e a vida que corre em desencontros.
Até do teu nome já me esqueci porque não te vejo o tempo necessário para o fixar.
Lembro apenas o rosto e a silhueta perfeita. Sinto nas minhas mãos as lágrimas que te aparei quando escorregaram dos teus olhos negros da cor da minha alma.
Vem me conhecer como sou. Podes chamar-me alienado por querer o sol morno e prateado.
É miragem, bem sei, rápida, momentânea, mas quero-me assim, louco.
Vem, rompe as barreiras e as vestes do marasmo e tenta descobrir-me em mim.
Ama-me com fúria desmedida retalhando artérias e veias até me encontrares.
Vem e funde-te em mim. Embriaga-me no calor do teu carinho.
Despe-me as palavras do impulso que me envolvem nesta camuflagem que me inibe de gestos meigos e de odores silvestres.
Despe-me de segredos, medos, vontades contidas em soluços.
Sim, chama-me louco. É, quero ser louco, assim. Sei que sou instável, mas brilhante como o sol. Sei que dou luz, mas que por vezes escureço.
Sou timido como a lua que me ilumina, acanhado como ela que nem sempre mostra a cara!
Chama-me louco, serei!
Amor demente é andar desamparado na esterilidade da solidão, e ser descoberto pelo bater do teu coração.


2010-02-01

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Enfermidade actual, ou dor de amor?


Hoje tenho o coração amortalhado.
Quero gritar, mas a voz doí-me no peito.
Tenho que desaparecer, mas não sei para onde.
Vou vestir igualmente a alma de negro e procurar um curandeiro de amor.



De repente, lembrei-me que a minha infância existiu.
O ano de 1959 corria de feição numa vila do interior ribatejano. Terra de azeitonas e azeite o odor dos lagares ainda hoje me invade as narinas. Em Março, o pranto de um recém-nascido ecoou na rua, oriundo de uma casinha pintada de amarelo.
Meio século me separa da casinha amarela, dos lagares e do odor do azeite.
Não fui eu que escolhi o silêncio do tempo, nem descobri o grito do fogo.
Não fugi do pó da guerra, que os touros levantavam quando devastavam a planície do meu olhar.
Nunca me assustei com o estrondo do trovão durante a tempestade nas noites de Inverno.
Nunca me senti sequer desconfortável com as vestes da sombra no meu quarto sombrio, nem entre os farrapos da tristeza que me vestiam.
Mas a vida, no seu ritmo empolgante, leva-nos para longe, a esquecer algumas coisas que, de tão inesquecíveis, julgamos nunca esquecer.
Existem dias em que sonho e revivo os meus seis anos, mas já não me circula nas veias o sangue dos pactos de petizes nem conheço mais as ruas e vielas da vila que antes me cabia na palma da mão.
De repente, estou ali, sozinho. O passado, ali à minha frente, teimando em dizer-me que no presente deveria encontrar formas de o preservar no futuro.
Sim, porque o passado faz parte de nós. Termos deambulado pelo passado faz com que exista presente e só com ele poderemos construir o futuro.
Ali estava eu, menino, puro, longe dos vícios da vida, da podridão da sociedade adulta, da constante competitividade que nos cega diariamente e nos priva do azul cristalino das águas da nossa imaculada meninice.
Voei. De repente esvoacei pelos dias mais recônditos, de maravilhosas aventuras, de momentos de amargura, mas garantidamente de grande inocência e felicidade.
Estava de volta. Despertei da letargia e estava feliz. No entanto ao abrir os olhos, chorei lágrimas de saudade. Isolei-me da solidão que me acompanha desde menino. Envolvi-me amorosamente com a puta da vida ali para os lados da linha de Sintra.
Tendo apenas essa desditosa como companhia, eu percebi que ninguém pode acabar com a solidão da sua vida sem primeiro acabar com a solidão que existe dentro da vida.
E se, a solidão é um estado de espírito atraímos igualmente alguém solitário.
Tentei um dia um relacionamento. Nada me deu. Conclui que um caso amoroso não me dá nada que eu não tenha.
Todos nós podemos ser felizes sozinhos, mas é bom ser feliz acompanhado. Ser infeliz sozinho é garantia certa de ser infeliz acompanhado.
Pois foi o que me sucedeu.
Percorri as obscuras ruelas do amor para encontrar finalmente um amor ideal, um amor fiel.
Ao fim de alguns meses, verifiquei que a fidelidade por coerção, por medo de perder, por ameaça é o caminho mais rápido para a infidelidade. O prazer da liberdade tinha-me sido retirado. Não foi uma escolha a fidelidade, foi eventualmente uma obrigação.
Farto do destino, encontrei uma mente aberta, moderna, livre de tabus.
Evaporou-se… a mente e condensaram-se os tabus.
É verdade leitores, todos relacionamentos abertos, mais cedo, ou mais tarde acabam. Porque num relacionamento desse calibre um dia um dos amantes acabará por encontrar uma outra oportunidade de relação e escolhe essa outra possibilidade por ser mais interessante e por estar sendo escolhido.
Venho pensando seriamente em tudo isto. Que querem…
Depois observo e leio os temas da maioria dos blogues, em que a infelicidade, o amor infeliz, a relação não correspondida impera e é um mote repetitivo.
Talvez esteja de facto embusteado e esteja a ser influenciado pela minha infância tardia.
Quem sabe se esta forma de olhar o mundo se deve a esta eterna alegria de ainda o olhar com os olhos de uma criança crescida.

26-01-2010

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

O Circo do Amor




A cidade “Afrodite” despertava da letargia da noite como uma ave preguiçosa a abandonar o seu ninho.
O rumor afinado dos pássaros cortava o silêncio e espalhava-se nas calçadas das ruas, na escola primária, no jardim da infância e na areia alva do velho “Rio Eros”.
As moçoilas caminhavam até o açude com suas latas, botando em dia as novidades de amor. E mesmo na volta, com aqueles pesos em suas cabeças, ainda tinham ânimo para conversar.
O circo chegou! Alegria geral, pois a cidade mudaria por um tempo. A cidade e todos nós. Viver é amar e amar é um circo nómada.
Há uns anos trabalhei num circo. Fui palhaço. Mas era um circo que caía aos pedaços. Não tinha chão. Apenas o pó era visível e a lona era o manto da noite, as suas estrelas, os holofotes.
Fui o palhaço de sapatos grandes com um sorriso aberto e contrafeito. Pintava o meu rosto de corres berrantes.
Era palhaço mal amado! Sou palhaço mal amado!
Dei na vida passos desequilibrados, que me fizeram tombar ao chão do desencanto e do desesperado.
Que saudades que aninho no coração.
O sorriso aberto das crianças, dos meus pés muitas vezes descalços de sapatos e de esperança. Do meu rosto pintado com as cores do contentamento, tentando representar um mundo de fantasia, um mundo de sofrimento disfarçado em alegria. Afinal também se vive no âmago de um palhaço.
Que saudades de te ver, a sorrir, a chorar. Que falta me faz o teu carinho, o som dos teus aplausos.
Já não sou palhaço!
Agora, talvez um adulterado trapezista, satisfeito com piruetas e saltos de braços em braços na esperança de que alguém me segure da queda fatal.
Inebriado e alucinado de vivências falazes, que são despojos de nublados afectos que tornaram a minha alma ansiosa, isolada, e sedenta.
Assim é o circo do amor! Aparências, sonhos, ambições e desenlaces, alegrias, tristezas, estados hilariantes e agonias.
Era sempre assim. O circo chegava, encantava e, de repente, evaporava. Levava seus encantos, a graça do inusitado, e muitas vezes até alguém da cidade. Mas, deixava também, as saudades e as lembranças com que me apego agora, tanto tempo depois, mesmo sabendo das verdades cruas de quem mora no circo estéril do amor como aqueles que visitavam a minha terra.
Meninas e Meninos, Senhoras e Senhores, sejam bem-vindos ao circo do amor. Para quem gosta de encantamento, o circo do amor tem a honra e o privilégio de vos apresentar o maior espectáculo do mundo.
Vamos dar início ao mundo da fantasia sem truques e apenas com o poder da mente, a magia infalível de “Mister Paixão” que nos irá apresentar o seu grande número de magia urbana.
Peço pois, a vossa máxima atenção, para “Mister Paixão” e a sua “partner” na sua fabulosa arte da ilusão.
As luzes arrefecem a claridade do palco ao inverso dos corações que amornam com o suspense.
Uma nuvem beija a boca de cena e como um relâmpago o ilusionista está no palanque.
O mágico, com gestos meticulosamente apurados faz levitar a diva assistente, e em simultâneo afasta a incansável e feliz fuga da rotina, como um coelho que sai da cartola. São as surpresas que gostaríamos que fizessem parte de nossos dias.
Em júbilo e em êxtase, a assistência aplaude, o magnifico desempenho do actor numa atmosférica épica parecendo uma festa afrodisíaca da Grécia antiga.
Todos temos consciência o quão devastador pode ser o quotidiano de uma relação.
A assistente, aquela figura de formas esculturais vestida com um adorno que demarca cada curva de seu corpo, mostra o que muitas vezes nos propomos fazer para chamar a atenção do ser amado, seja como amante ou companheiro e a infinita cobrança com o corpo perfeito e a insaciável disposição para amar e distribuir sorrisos, apesar da passagem feroz dos anos.
Será sempre assim?
Talvez dependa da vontade e afinco da assistente.
A arte mágica deu lugar ao palhaço alegre, bem maquilhado e com um enorme sorriso nos lábios.
Todos sabiam que aquele colorido representava a pessoa amada. De uma maneira geral, apaixonamo-nos por pessoas que nos fazem rir, porque nos trazem sensação de alegria e bom ânimo constante.
O palhaço triste, e mal enjorcado, entrou a meio, e meio grogue trazia consigo estampado no rosto as lágrimas e sorriso fechado.
Na forma de plebeu representa a angústia do ciúme e tende a fazer com que o medo de perder o grande amor faça justamente o que tanto teme.
O ciúme exagerado torna as pessoas impacientes e carentes, afastando a cada dia o ser amado, como uma ampulheta a derramar grão por grão de areia levando pouco a pouco, um tempo que infelizmente não volta atrás.
De seguida, as cabeças ergueram-se para cima. O topo foi iluminado. A plateia ficou na sombra do homem do trapézio. O corpo esguio e poderoso de equilíbrio indefectível representa a confiança, a fidelidade.
A plateia em tétrico silêncio reza em surdina para que tudo corra bem. É bem conhecido de todos as consequências de um tombo fortuito. A queda da confiança uma vez estatelada ao chão tem como trágica consequência, senão a morte, no mínimo sequelas profundas e dolorosas.
Felizmente tudo correu na perfeição e como previsto.
Agarrado à corda da lealdade, o trapezista deixou-se escorregar lentamente até atingir o chão. Beijos saíam da sua boca em direcção à plateia, rendida pelo fabuloso trabalho de “Eros”.
Como é belo ser trapezista no circo em que o amor se transforma. E vivemos sempre lá em cima, trapezistas da nossa própria existência, bailarinos da nossa própria esperança.
Quem cai por amor, cai sempre para cima!
Todavia o amor para subsistir e vencer tem de ser nutrido. Eis que se ouve um estrondo de motores… Lindo! O poço da morte. Os protagonistas estimulando as leis da física, cruzam-se e voltam a cruzar-se com um ruído perfeito de sintonia.
Aqui assistimos à adrenalina, ao ápice de intensidade, aos ruídos e emoções do sexo apaixonado. Os presentes aplaudiam cada gesto acrobático de boca semiaberta de emoção deixando escapar “ais” de deleite pelo êxtase que os abraçava.
Alguns rugidos invadem os ouvidos dos presentes. Há! São leões!
O domador “Ovídio” surge inesperadamente com um livro na mão. As feras são subjugadas pelos poemas de “Metamorfoses”.
Que prelecção podemos tirar? Os leões cedem como que magnetizados por algo divino.
Também nós abdicamos na relação, quando uma das partes se anula, engole seco, vontades, verdades e apetites para satisfazer as vontades e caprichos do outro, seja como demonstração de amor ou mera sobrevivência.
Tal como as feras, a maior parte de nós recolhemos ao nosso secreto mundo num eunuco isolamento.
Envolto em roupas extravagantes, um homem entra com um cinto repleto de facas.
Eis um dos mais esperados do espectáculo circense do amor.
O atirador de facas! Confessem-me lá se não é a perfeita representação do que circunda uma relação!
Ciúmes, farpas, palpites, cobranças, comentários indesejáveis; cuidado!
Se uma destas facas lhe atingirem o peito podem contaminar-lhe a alma e o espectáculo pode terminar antes do previsto e levar consigo toda a magia vivida por todos os personagens durante a apresentação que, até então, pode ter sido esplêndida e triunfal.
Boa Noite Senhoras e Senhores!
O Circo do Amor vai voltar amanhã e todos os dias, enquanto houver amantes loucos e apaixonados neste mundo tão nu de sentimentos.



21-01-2010


terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Porque sou um sonhador?


Muitas vezes viro-me do avesso na tentativa desesperada de ser poeta, mas o talento foge-me e por essa razão escrever basta-me.
Nestes dias em que a minha mente vagueia pela nebulosidade, a beleza confunde-me e o encantamento fere-me ao ver as chagas das ruas.
Sempre que vejo uma criança sofrer antevejo menos um raio de sol que brilha.
Julgo que caí na terra por acidente. Enquanto anjo tropecei certamente numa nuvem e aqui tombei.
Por essa razão sou um sonhador… um homem pacífico, distante, onde os sonhos predominam.
Sou um ser que imagina que o mundo pode ser um pouco melhor. São assim os sonhadores.
Por vezes deixamos passar desapercebido coisas boas na nossa vida.
Por vivermos de fantasia, muitas vezes esquecemos o mundo autêntico que nos rodeia.
Se amantes, vivemos constantemente na lua, as nuvens a nossa paixão.
Para o sonhador, aquela pessoa é um ser perfeito, incomparável, insubstituível... Mas não é mera criação de sonhos, porque quando encontramos alguém que nos chama a atenção é porque realmente essa pessoa é algo com que já sonhamos há muito tempo.
E quando a morte nos olha de frente, e nos sorri, o sonhador ergue a cabeça, e sorri sem receio de volta.
E só irei um dia lamentar esse momento, se deixar a vida sem realizar o maior dos meus sonhos... sonhar com a vida que concebo, com os ideais que visiono.
Mas, a derrota é nossa consorte, porque somos incapazes de vencer o autismo dos fidalgos que passeiam pelos campos de caça em busca de mais um triunfo.
Todavia, as lágrimas que me correm pelo rosto da derrota são mais importantes que a vergonha de me calar por dentro.
Sei que morreu mais um raio de sol, porque observei a expressão mais triste que vi até hoje.
O menino do gorro amarelo sujo. Crostas no rosto e nas mãos. Lembrou-me um quadro de um qualquer pintor flamengo do século dezassete.
Um corpo que estava pesaroso e abismalmente desolado, mas que de forma ágil fintava o transito caótico da Avenida da República, com a mão suja e trémula à procura de um cêntimo junto das janela cerradas dos carros apressados.
Fitei-o por um momento. Um lapso de tempo que se perdeu naqueles olhos negros e sujos.
O rosto assustado fazia lembrar a imagem de alguém que viu toda a sua família parecer num bombardeio de Gaza, a cabeça dos pais dilacerada por um atirador furtivo em Sarajevo ou o genocídio dos amigos num atentado em Bagdad, às margens do rio Tigre.
Fiquei todo o dia a pensar como foi a vida lazarenta que esse menino levou e que esculpiu aquela expressão.
E não me sai da cabeça, o rosto amargo desse menino.


22-12-2009

terça-feira, 3 de novembro de 2009

O mundo já não é o mesmo, pois não, mãe?



Quando me ponho a pensar, a pensar desmesuradamente julgo que mais dia, menos dia darei completamente em doido. Isto se não o for já!

-Já fiz cinquenta anos, mãe. Sabias? Mas ainda sou o teu menino.
Pois, não tens consciência… desde há cinco anos que essa maldita te roubou a lucidez e o vigor.
Penso, torno a pensar, e elevo a rigidez dos membros, pousando as mãos como uma concha por cima do coração, certificando-me que ele ainda bate.


Amo-te!


quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Meretriz


As pernas dela hoje estão quietas. São esguia como raízes apodrecidas que se agarram ainda à terra. Em sossego. Já não são livres.
O corpo ostenta marcas que contam a sua vida. Um corpo apenas que se usa massacra, e deita fora. Um corpo pervertido! Um corpo que fora belo e elegante como um modelo de passerelle. Agora, sobra um bocado de carne que mente quando geme, que chama de amor a todos os rostos que se atravessam com alguns pêlos na cara.
Agora, as suas pernas abertas são como dois campanários altos e sombrios, onde os gestos lânguidos dos minutos que percorrem os meandros do seu corpo, as entranhas húmidas do ventre, o bafo quente da boca.
As pernas dela, há muito tempo que não passeiam, que não correm, que não dançam. Já não se lembram do toque suave dos dedos de quem a amou dos lábios quentes que as beijavam com o ardor da paixão.
Presentemente, as suas pernas abertas são apenas testemunhas de línguas hirtas e duras, como se fossem uma matéria densa e viva, que penetra a boca quente e ávida de outro corpo, como um soluço de falso desejo que vai crescendo até se tornar violento e imperativo.
As pernas dela, já não dançam instigadas pelos sons melódicos, em frente à parede multicolor, bem desenhadas pela forma dos saltos altos que lhes vincavam a forma e a formosura.
Hoje, aquelas pernas são fantoches de diversão. Apetrechos colocados para o lado.
Aquelas pernas já não são pássaros, voando nas retorcidas calçadas de Lisboa em direcção ao amor.
As suas pernas já nem conseguem ser o que, afinal, são: pernas.
Actualmente, as pernas dela apenas escoltam as mãos frenéticas que apalpam os corpos, incapazes de sossegar dentro dos segundos, porque as mãos são extensões reais dos sentimentos do desejo enganador. Os corpos perfazem um ritmo compassado que ora se estanca para contemplar o olhar do outro, ora se apressa por não ver mais nada.
Já não fazem o que o que as outras fazem e, apesar de parecerem ainda gaivotas que mesmo tendo asas, não conseguem voar. São apenas silêncio. Um silêncio suspenso do seu corpo. Um silêncio comedido. E ela sorri-lhes, com os seus olhos caídos sobre elas: porque, na verdade, o silêncio é já a sua pele, é já o seu espírito.
Nas palavras ditas, proferidas, em surdina, com a voz quase rouca a sair de dentro da garganta, uma sensualidade profunda que rasga os segundos. E que incita e entusiasma. E que seduz e aprisiona. A inevitabilidade tamanha faz os corpos parecem unos e nunca mais se soltarem - nunca mais, enquanto ali estão.
De pernas abertas, finge que o sente. De pernas abertas, no seu interior sente-se dormente. Já não é capaz de sentir nada.
No compasso de espera entre um cliente e outro, acende um cigarro na esperança de ter um momento só seu, onde se possa encontrar a sós com o seu pensamento. Se isso ainda faz algum sentido.
Sentido, apenas a nudez mística do que faz, e a fonética e a semântica quando no final da batalha corporal ainda lhe chamam: “Amor”.

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Sim, um homem também chora, quando parte.

"Um homem também chora quando assim tem de ser"
Pedro Abrunhosa

Ontem acordei com lágrimas no coração.
Olhei o céu durante o dia sempre com os olhos embaciados de tristeza.
Á noite… adormeci com o excedente das lágrimas a inundarem-me a alma.
Quando um homem chora, será que a dor se dilui?
Quero chorar até que as lágrimas me abandonem, como quem mostra desespero por escorrer num rosto molhado de dor e aflição!
Chorei diante do espelho, enquanto barbeava o rosto atestado de mágoa.
Lágrimas efervescentes transbordam-me do peito alagado de dor.
A primeira gota caiu-me sobre a face, escorreu-me pela têmpora e, delineou-me o contorno do maxilar, indo finalmente parar junto ao queixo numa quietude ameaçada pela cruel gravidade.
Já não sabia se conseguia mais chorar sem na realidade ter chorado. Era urgente chorar o passado, chora-lo todo, o mal amado, o feliz, o desgraçado!
Quero chorar para poder criar um lago onde ficarei submerso e escondido, à espera que o sol se ponha, onde ansiarei para que algo aconteça que contigo se relacione!
A chuva ainda não cai, mas a face continua acoitada por gotas escorregadias que surfam os contornos do meu rosto desgastado.
Quero chorar para branquear o meu passado, presente e futuro.
Afinal um homem também chora.
Choro quando amo.
Choro quando não me amam, quando sinto o meu mundo a esgotar.
Quero chorar porque não consigo aceitar a minha sinceridade, mesmo sabendo que quase tudo igual ficou independentemente da minha verdade!
Quero chorar, mesmo que me sinta mal e submeta o meu coração a uma descarga de aflição!
Sim, um homem também chora, quando parte.
Até sempre!

sábado, 17 de outubro de 2009

Esvoaçar de borboletas


Esta estrada virtual cheia de muros de um lado e do outro, que nos permite esconder tabus e preconceitos, dá-nos a protecção segura e necessária para termos coragem de desabafar anormalidades que não conseguimos quando enfrentamos os olhos a quem nos escuta.
Quando faço a minha ronda tal vigilante que tenta encontrar algo de anormal no seu percurso, muitos pensamentos me passam pelo juízo e porque não pela alma.
Será que esta espécie de diário que tanta gente passou a saborear, é de facto um “gritar” da dor que todos temos vontade de expelir?
Será que com o passar dos anos, do progresso, somos também cada vez mais infelizes? Cada vez mais isolados?
Embora não tenha formação filosófica para tal, perco-me a ler pedaços que encontro nesta sinuosa estrada do progresso.
Gosto de ler e principalmente conjecturar o “sentir” de quem escreve… e tiro sempre a mesma conclusão.
O ser humano é por natureza um ser insatisfeito, eventualmente seremos o animal, menos adaptado à sociedade que construiu.
Somos o animal que mais medo esconde, e tal como afirmo no meu livro “O lado escuro da lua”… “temos medo constante da solidão, da loucura, do desespero de não ser ninguém, da frustração, do medo de ter medo, o terror de voltar a estar no lado escuro da lua.”
Julgo que tentamos sempre perseguir a perfeição e esquecemos que somos animais que surgiram na terra, e que como as outras espécies que connosco coabitam, temos desejos, medos, frustrações… mas dizem vocês, sim, mas somos racionais.
Sem dúvida que somos, somos racionais, mas racionais particularmente para o infortúnio.
Lógicos para matar por inveja, por gula.
Pensantes para construirmos engenhos que mais dia, menos dia, servirão para a destruição do planeta.
Acertados, para tramarmos o parceiro.
Sensatos para proliferar guerras inúteis.
Prudentes para ferir o nosso semelhante.
Não! O meu mundo nunca foi totalmente azul, nem a minha vida foi sempre colorida como um arco-íris. Olho o negro céu, e confesso que por breves momentos, consigo ver algumas nuvens sombrias.
Por vezes quero gritar: Que se lixem todos estes pseudo racionais!
De manhã e como o faço todos os dias, faço a minha viagem de comboio até Lisboa.
Gosto de observar os comportamentos, os rostos, os sorrisos e até os bocejos.
Quando algo me prende a atenção, é uma simbiose entre nós apertados e borboletas no estômago.
Hoje assisti a um casal de idosos falarem dos netos e senti essas borboletas a esvoaçar entre as suas sábias palavras.

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Fogo posto


Boa noite velha amiga! Sabes, se fosse agora, talvez não o fizesse. Não sei, talvez me retraísse, ou mesmo abdicasse de tudo.
Sabes que esta noite não parece tão acolhedora, este frio não é tão propício e, pior que tudo, não estou a ter o prazer que esperava. Por isso, se fosse agora, provavelmente não o faria.
Mas é tarde demais.
Está feito. Posso arrepender-me, e arrependo-me, mas não há mais nada a fazer.
É por essa razão que te escrevo. Para que um dia, quem sabe daqui a muitos, muitos anos, sejas capaz de me perdoar.
Perdoar não digo, entender também não. Já me basta a cólera que vais sentir quando vires o que eu fiz. Ou quem sabe, te acalme.
A minha ira não acalmou, por isso é que escrevo o que escrevo e fiz o que fiz.
Sim, sei que não é desculpa, de facto não é, mas não me consegui ver livre da raiva e ela tomou conta de mim. Guiou-me o corpo e essencialmente as mãos.
Levou-me até esta casa onde fomos, em tempos idos, felizes nas noites de luar brilhante, quando fazíamos amor no chão de pedra, isolados do mundo e da civilização por um pinhal maior que o pinhal de D. Diniz, quando, abraçados, jurávamos amor e paixão eterna e a chama ténue nos consumia pela noite dentro.
Agora o fogo consome a casa, daqui a pouco o pinhal, talvez seja capaz de me cercar sem eu conseguir fugir e me permita a honra de ser imolado por ele.
Quem sabe carbonize o meu corpo e esta carta e tu não chegues a lê-la nem a perceber porque o fiz.
Queria chorar agora mas não consigo desviar os olhos do fogo.
Dança à minha frente, chama-me, goza comigo, excita-me, enerva-me e intriga-me.
A paixão do vermelho e laranja, o som da madeira a crepitar, as faúlhas que se soltam no ar numa alforria eterna.
Olha velha amiga vou só ali acender mais um cigarro no fogo, para o apreciar melhor, para ser como ele.
Desculpa-me o que fiz. Mas não esqueças quem eu fui.

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Ontem, hoje e amanhã




Existem momentos em que me sinto mais velho que o tempo, noutros, manifesta-se em mim um aroma a talco como o de um recém-nascido.
Ontem fui actor de uma película muda, a preto e branco, hoje sou espectador de mim mesmo. Sinto e vivo mais.
Nos bailes da vida onde ontem dançava leve e solto de movimentos, mas acanhado de sentimentos, hoje espectador, danço com todas as mulheres do mundo, todos os ritmos, rio todos os risos e troteio todas as músicas como as soubesse de cor e salteado. Cada estrofe, um momento de vida. Cada refrão, um momento de amor.
Ontem montei cenários de sensações, iluminados por lâmpadas de néon. Hoje, os cenários são albergues de desvalidas recordações, visionados apenas pelo luar, na paisagem lunar dos meus sonhos feitos de odores vividos, de mulheres que amei.
Como diz uma amiga… “Estou onde não estou, sinto sem expressão o que ficou por não estar.” Como te entendo. Eu completo-te verbalizando, que eu só estou bem onde não estou, só quero ir onde não vou, amar quem não devo e fugir onde só me perco.
Em tantos mares naufraguei sem nau que me abrigasse, tantas bibliotecas visitei que me perdi nas páginas de copiosos livros.
Em tanta cama repousei abandonando-me à sorte de frívolos amores, que em mim amadureceram. Alguns, convidando-me a desvirginar-lhe a alma. Também os houve, que me resgataram deste claustro de fobias e eu, sequioso mostrei-lhes os meus olhos despidos das mazelas do mundo olhar puro, virgem de vida e morte, inocente como um mito.
Ontem nada me doía, hoje dói-me o peito, a luz baralha-se-me a mente, relampeja-me em trovões, e estes zumbem-me nos ouvidos.
Ontem lia livros incendiados de paixão e sonhava com o amor sentido e genuíno.
Hoje, como um doido no escuro a vociferar impropérios, o meu punho inflamado e empolado de tanto rodar, os dedos tortos, os óculos baços, as canetas roídas, gastas e amontoadas, o quarto sem luz e no entanto escrevo e escrevo segundo a segundo, minuto a minuto, hora a hora, dia a dia.
Na ausência de papel escrevo no corpo. Braços, pernas, tronco, cabeça, o meu corpo polissilábico, pleno de azul e eu sabendo, nos momentos em que começo a fraquejar, que a luta apenas está a principiar, segundo a segundo, minuto a minuto, hora a hora, dia a dia.
Hoje, as portadas da janela permanecem abertas, não me dei ao trabalho de as fechar, e também não me apetece mexer mais que a minha mão e o antebraço e mover os olhos sobre este caderno que tenho diante de mim, tão cheio de palavras, frases, expressões, poemas e textos.
Será que depois de ler o que escrevi hoje, de uma forma leve e espontânea acreditam que um amor e uma cabana tenham algum significado na minha forma de estar ou de escrever?
Será que sou mesmo romântico?
Será que penso demais?
Será que sonho com o impossível?
São muitos os que me perguntam quem me fez mal, quem me tornou tão triste, por aquilo que escrevo. São muitos os que deduzem que devo ser uma pessoa de bem com a vida. São muitos os que me acham diferente, são muitos os que me fazem perguntas às quais não sei responder, nem à maioria delas um dia saberei responder (tenho consciência das minhas limitações), porém… hoje chegou ao fim as continuas questões sem resposta. Existirá alguém por detrás de todas as minhas palavras?
Haverá?
Quanto a mim, guardo o meu segredo onde sempre o guardei, dentro de uma caixinha, e de onde sai de quando em vez, uma verdade, uma mentira, um sorriso, uma lágrima.
Sou um contador de histórias e sentimentos.
E agora vou levantar-me, erguer-me de novo, se cair, levanto-me.
Pode custar, pode até doer, mas a força de vontade tem que ser maior que a dor do embate no chão, e ainda que fiquem marcas, tenho que aprender a viver com elas.
Fazem parte de mim, e de um processo, que se chama Vida. As coisas simples, que por vezes, teimamos em complicar.
No entanto, ainda é cedo. Digo para mim, ainda que morra amanhã. Ainda é cedo, o amor ainda vai alto, claro que sim, um dia chegarei lá, e sem me dar conta, hei-de vê-lo desabrochar. Direi com ênfase, encosta os teus gélidos lábios à minha boca de pedra.
O dia irá ser enfrentado de frente e um de cada vez.
Agora, deixem-me estar.

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Noite eterna


Os candeeiros da rua já se acenderam. É noite! Anoitece mais uma vez na fronha dos meus lençóis e tu não estás. Penso se estarás a pensar em mim!
Olho pela janela e fico encadeado com o esplendor da lua grávida. Penso de novo em ti.
Como desejava estar preso nos teus braços, sentir o calor do teu corpo incendiar-me as veias da paixão. Sentir o doce dos teus lábios colados aos meus.
Só, no encoberto da noite eu encontro a luz para sonhar. É à noite que eu pergunto tudo por ti, e peço à lua e às estrelas para te trazerem junto de mim.
Ando perdido. Sinto-me um enfermo dentro deste corpo sem utilidade. Um lobisomem faminto de amor. Tu sabes!
A solidão traz-me a mágoa por não te ter aqui.
A solidão traz-me a mágoa por não te poder abraçar agora.
A solidão que me magoa vai saber esperar.
Faço da lua cheia um farol para me guiar, pois só no escuro da noite encontro o clarão para sonhar!
Anoitece, mais uma noite que tu não estás.
No silêncio envio-te palavras de amor que tu escutas quando espreitas à janela do teu coração e o vento da alma te invade de palavras.
Palavras de saudade.