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domingo, 18 de setembro de 2011

A ÚLTIMA DAS AMANTES



Vezes sem conta perco o equilíbrio do meu raciocínio e mergulho no abismo dos sentimentos. Faço das tripas coração para não sentir o sal que me arde nos olhos. Noto agitação sob os meus pés, mas não compreendo porque se move a terra.
Admiro o pôr do sol quando as nuvens de cor de sangue se rasgam no céu e o grito das gaivotas me queima a garganta de comoção.
Quantas vezes tenho receio de pensar. O medo da verdade aterroriza.
 Sempre que o escuro se achega tenho medo de nós.
Não o tenho de uma tempestade ou de trovoada, mas sim da acalmia, da serenidade quando tudo termina. Sinto o suor escorrer pelo frio que me faz na alma… tenho incessantemente medo quando a rotina se instala sorrateiramente e nos faz perder aqueles pequenos focos de luz que a quebram.
Sempre os mesmos locais, impregnados dos mesmos cheiros e dos mesmos sons. Os mesmos rostos vestidos da mesma disposição para encarar o mundo, ou simplesmente para sobreviver nele.
Arrepia-me observar a minha pele feita das nódoas negras provocadas pelas pancadas da desilusão, do despotismo que me estrangula, da falsidade que me rasga. O meu coração é um mancebo sem cor que rasteia pelo prado do teu corpo.
Ainda ontem entrei na capela esvaída do meu corpo e comunguei lágrimas de saudade ao ouvir o bamboar dos sinos em teus passos.
O mar que tanto me cativa derrama-se inteiro dentro do seu peito que me impede de respirar. Dói!
Abri a janela do quarto para deixar embocar o vento de mansinho. Cerrei a porta. Enclausurei-me do mundo. Deitei-me a contemplar para o tecto com uma música no ouvido. A banda sonora, ideal para me sentir assim.
Gosto de estar sozinho e emparedado. Parece que todas as forças do universo se movimentam para lá de mim, para deixarem o meu pensamento correr livremente.
Vejo as ruas brilharem na escuridão dos teus olhos, enquanto o céu denigre no cinzento triste dos meus.
No negro dos teus olhos antevejo os becos da minha ruína.
Nessa imensa escuridão vejo o prenúncio da noite da minha insónia.
Na interminável  penumbra dos teus olhos mergulho em ondas salgadas na busca da parafernália dispersa pelos anos sem tréguas.
Nas luzes da noite me encandeio, na cidade sem cor, procuro o fulgor dos teus olhos sem fim.
Nas palavras que prego tento encontrar o ágape que me sustenta o espírito.
Queimam-me nas mãos as lágrimas, deste amor que vive na orla do abismo.
Nas lágrimas que semeio flutuo até ao conventículo onde os meus fantasmas pernoitam na angústia da minha perdição.
Com as labaredas do teu olhar decalco no peito a mácula da minha dor.
Como uma raposa de fogo, ateias o desejo na eira do meu corpo.
Visto-me pacientemente de negro como o risco que traças nas pálpebras impacientes e desenho-me numa mancha difusa de instintos.
No negrume dos teus olhos, não te encontro, e como um aguilhoado peregrino, trilho o dédalo que incessantemente nos separa.
Serás tu a minha Divina proporção? Ou a última das amantes?
Tenho medo, mas um dia também eu terei a minha solenidade. Alguns irão chegar carregados de flores de um odor pérfido que depositarão ao lado do meu féretro, mas só tu irás chorar com a face encostada ao gelo dos meus lábios inundados de púrpura.
Porque tu és, seguramente, a última das amantes.


segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Red Rain



Ontem choveu e eu chorava também.

Havia demasiado bafio no ar.

A água era vermelha cor de sangue.

Sons de vapor misturado com manchas de memórias antigas.

Precisava de água. As nascentes secaram à beira da estrada perdida no desejo.

Um dia de chuva. Em desespero beijei a água que desabava sobre um corpo moribundo.

Gotas fêmeas de luxúria, sem dó continuaram a molhar-me por inteiro.



quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Alguém que me faz falta



Ontem senti-me triste. Hoje experimento uma sensação de amargo. E amanhã? Quem sabe aparente uma nostalgia.
Antes do amanhã, hoje vou tentar virar-me do avesso. Ver o interior de mim, respirar por todos os alvéolos dos meus carcomidos pulmões. Depois narrar para mim próprio a perpétua angústia que me acompanha há muito.
Volto a respirar fundo e agarro o ar com toda a força. Nos meus ouvidos um silêncio imponderável e agudo capaz de me rebentar os tímpanos.
Deixo fugir o ar, num esforço que leve com ele a tristeza que me enamora. Já não passo sem ela. Entre os meus lábios, uma muralha feita de espera. Vai-te com Deus.
Volto a engolir o ar frio que me resfria o corpo. Os olhos, marejados de sal sob o véu da ausência de alguém que me faz falta.
Uma insaciável fome de escorrer pelos contornos de alguém que me faz sentir carência. Uma enorme vontade de gritar até a voz me doer de rouquidão.
Existe em mim uma ferida aberta, sem sangue que me consome o corpo e a alma.
Ontem sentia-me triste, hoje um sabor a fel na boca.
Liberto-me do ar que me aprisiona. Corro para o jardim da minha concepção. Vejo árvores enormes vergadas pelo peso do tempo. Olho as papoilas vermelhas da cor da minha seiva.
Quero ser a abelha para em cópula colher o mel que existe no gineceu do teu corpo. Beber o mel no cálice do teu coração.
Transformar-me em vento sereno para te poder polinizar e dar-te o fruto gerado nos carpelos da minha imaginação.

2010-02-23

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Paixão boémia



Julgo que tudo neste país se tornou gélido. Neste final de tarde, o frio intenso apoderou-se igualmente de mim. Tomou-me por completo.
Acordei mesmo já com este pensamento. Despertei órfão de ti… e nem o sol que de manhã venceu a batalha dos cirros e que deixei penetrar na minha pele impiedosamente, me aquece o frio glacial que passeia pela minha alma.
É nas entranhas da terra, nos ornados verdes das planícies, que busco a serenidade espiritual, quando me sinto inquieto e triste. Mas nem sempre a imaginação me traz o cheiro do rosmaninho e o odor dos teus cabelos molhados pelas gotas do suor do teu amor.
Faz do teu harmonioso corpo a manta aveludada e quente dos meus sonhos.
Apertado a ti, quero desfrutar o calor do teu peito. Já não sinto o frio, mas sim a tua pele ardente de prazer.
Quero aquecer-me nos teus braços neste Inverno. Observar a lua lá longe no infinito a escorregar pelas vidraças da janela. O vento resmunga lá fora em soluços intermitentes.
Eu não o oiço. Esqueço tudo, só para te acolher no mais profundo íntimo do meu ser.
Talvez seja nesta bebedeira de azul e vento, que eu finalmente te reencontre nas serranias do pensamento.
Quero eternizar a magia quente do momento.
As tuas mãos hábeis dançam no meu corpo nu, apenas coberto de ti. Seduzes-me. Beijo teus lábios sedentos. Mordo-os e sugo a tua língua enquanto esculpo outras estrelas na tua pele arrepiada.
O que faço e desfaço é apenas loucura! Faço e desfaço o teu corpo de mulher como um instrumento musical. Toco-o com a levidade e mestria de um pianista.
Transformo o teu corpo num piano, percorro os meus finos dedos nas teclas de ébano e marfim do teu peito como se fosses um Schimmel de cauda.
Ouço o ritmo de nossos corações. Fecho os meus olhos e partilho contigo desejos únicos, como sentir a nossa sublime melodia, tocada neste piano ardente de paixão em “legato” como se o som das notas sucessivas fosse um contínuo tal como a nossa paixão.


sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Paroxismo de momentos



Momento inicial
Tenho despertado com uma dor no peito e uma agonia indisfarçável.
Não tenho vontade de fazer nada. Não tenho vontade de viver.
Estou triste e gostaria de ficar só.
Afasta-te sombra do infortúnio, única que me amas e segues.
Só não sei, se este é um caminho sem retorno.


Momento da catáfora
A sombra negra na coluna de mármore à minha espera.
Dás-me dois beijos e caminhas em direcção ao sol.
Vejo-te a subir o passeio e cada vez mais longe, pequenina.
Eu e a sombra negra de mão dada na penumbra.
Senti um algor desmesurado nos ossos, mas não pensei.
Perguntei-me e respondi:
“Olhas-te para trás? Eu, não.”
“Olho, agora.”


Momento mate
O vento quase que tudo levou. Interrogo-me porque não a mim?
Farei parte de algum resto com que o infortúnio me afortunou?
Ou será castigo que o acaso me ofereceu?
Choro lágrimas pálidas de medo.
Descanso meu corpo esgotado, vergado e doente.
Se morrer, morro, porque sem amor não sou gente.


Momento do purgatório
O meu destino tem sido como um cão repleto de raiva.
Persegue-me como louco rosnando ao passar dos meus passos.
Nos sulcos de um tempo longo, infértil e matreiro.
Quero fugir dele, quero passar-lhe ao lado, porque me aferra, mas acabo sempre nos seus tenebrosos braços.


Momento terminal
Eu não sou poeta, sou simplesmente sonhador.
Arrumo nas linhas dum livro imaginário as palavras dos meus sonhos.
Sem grandes ornamentos e complicações, pois surgem do fundo do coração.
Na ilusão deste sentimento, escrevo para que possa existir, ter vida.
Deixa-me ser apenas como aquela página que não foi lida.
Agora, só me resta gravar as palavras num raio de sol, e imprimi-las todas as manhãs no brilho de um sorriso dos lábios de uma criança.


2010-01-14

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Ter consciência dói



Hoje gostava de escrever um poema, mas a tristeza assola a minha mão amputada de palavras nobres, a alma estraçalhada de ideias e o coração em compasso acelerado, mas desajeitado de rimas.
Quero lá saber de rimas.
Também não existem duas árvores iguais.
Penso e escrevo como a variedade das flores que encontro no campo.
Olho e comovo-me quando aprecio a mistura de cores que delas brotam.
Olho e comovo-me como a água corre quando o chão é inclinado.
Olho e comovo-me quando olho para o branco do papel tingido por rasgos negros feitos com a minha mão.
Quero escrever de forma natural como a brisa que me afaga o rosto.
Quero ser livre como a água que corre no chão oblíquo, quero ser livre de mostrar a cor da minha alma.
Quero ser livre como o lácteo da folha de papel.
Quero ser livre como a brisa que se levanta ao fim da tarde no estio.
Mas, sinto-me preso como um pássaro sem asas, preso ao chão com amarras.
Sinto-me preso por querer voar e não poder.
Quero correr, quero fugir daquela parede bege que me sufoca com a falta de ar que me faz pesar os alvéolos. Magoa quando respiro.
Hoje, vou saltar pela janela e correr para longe, sem olhar para trás.
Sei que a vida ainda me espera. Só que quanto mais vivo, menos me conheço!
O meu interior é compartilhado, talvez seja por muitos, ou por ninguém.
Mas certamente serei alguém que não é de ninguém.
Habito dias tranquilos, outros como o mar revolto.
Momentos em que me sinto forte, outros em que me sinto carente. Mas mesmo assim, sou gente.
Quero descobrir quem sou. Sei que é deveras complexo, porque quanto mais me procuro, menos me descubro. Muitas vezes apaixonado, outras vezes na solidão do só.
Eu que não sou um homem de fé perdi a fé nos homens, perdi a fé em mim.
Porque sou diferente da maioria? Chega! Vou fazer como toda a gente.
Não suporto mais. Não quero saber de mais, porque a vida não foi feita para se viver assim.
Não me interessa se um dia morro à fome. Não me importa saber do papelão e do cobertor que vi há pouco no chão à porta da pequena capela.
Já não me indigno por saber que vivemos num mundo injusto.
Desisti. Não quero saber. Não quero saber do espoliado, do sofredor. Quero ser igual aos outros. A partir de hoje encolho os ombros e não quero mais saber. Afinal quem por mim sofre?
Quem em mim pensa? Tu? Ou tu?
Ninguém me responde. As respostas seriam certamente as mesmas de sempre. Os pensamentos iguais e à tua semelhança.
Será sacrilégio perder a fé? Isso importa? Fará de mim um homem mais feliz?
Não sei, não quero saber e não quero acordar.
A realidade magoa. Não quero sofrer mais. Não quero ter consciência.


Porque ter consciência dói.

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Vou dormir




Vou dormir. A lassidão nos olhos provocada por uma semana louca, não me permitem enxergar os ponteiros do tempo.
Vou dormir. São horas de entrar no mundo que me é tão querido, o dos sonhos. Apago primeiro a lamparina da lua que ainda vagueia feita tonta, pelas paredes do quarto.
Vou dormir. O amor promove por mim a dicção do sangue que me percorre nas veias.
Vou dormir. Despeço-me com uma carícia do livro que tenho na cabeceira, que me vigiará os sonhos, para que não sangre como um homem incapaz e obscuro, que não beba o sal e o fel do homem solitariamente demente.
Vou dormir. O corpo necessita morrer por algumas horas, longe da dúvida que me habita no dia. E, na cegueira do céu, as pálpebras cerram-se, os ossos estalam pelo peso dos anos que já me afloraram o corpo. Ardo serenamente em fogo lento e abraço-me no grito mudo do homem marginal.
Vou dormir. Um caderno branco permanece aberto como um barco à beira dos frescos frisos da escuridão e como cego quebro-me por inteiro contra o muro da indiferença.
Vou dormir. Adormeço, sonho e vejo-te a sorrir como uma rosa a florir. Deixo-me ficar parado ao teu lado a observar-te como um anjo, que apenas te ama.
Vou dormir. Mesmo que seja apenas o sonho imaterial, mesmo que seja só a palavra calada, e que me negue ao poema sem valor digo-a aqui com voz em segredo, longe dos teus olhos e da tua respiração: “Existes em mim!"


segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Sonhos meus...



Os meus sonhos são encrespados como as águas revoltas, gélidas e salgadas.


São feitos de reflexos inatos, incontroláveis como as experiências de Pavlov.

Transmitem escárnio como a Gaivota de Tchecov, são santos e pecadores como o crime do Padre Amaro e por vezes sedosos e azulados como as lágrimas límpidas do Tamisa.


São gritos à autonomia e à liberdade apregoados por Leminski e, parecem um arco-íris como os olhos de Natassja Kinski.


São extensos, muitas das vezes tristes e pernoitados, tais prostitutas prostrada à beira da estrada.


Pobres e eternos lutadores como Capitães de Areia de Amado e feitos de palavras negras, como A Canção Desesperada de Pablo Neruda.


Devassos e lascivos como as Memórias de Uma Moça bem-comportada contados por Simone Beauvoir.


São miseráveis e prostituídos como as sarcásticas personagens de Victor Hugo e timbrados nas fragrâncias de Chanel nº5 de pau-rosa.


São vividos e compostos nas quatro estações de Vivaldi ou como Um ensaio sobre a cegueira de alguns Saramagos bem entrosados.


São corpos nus soltando flechas de cupido em busca de Musas e Graças e esculpidos em gelo por tesouras mágicas nas mãos de Eduardo, como num conto de fadas da minha meninice.



São simplesmente sonhos




sexta-feira, 31 de julho de 2009

Ouve



Ouve! Não digas nada.
Escuta comigo os carros lá fora, as luzes a entrar pelas frinchas da janela, as prostitutas em cada esquina gastas do amor.
Ouve os gatos a lutar por não terem quem os ame.
Ouve as pessoas que dormem na rua porque ninguém se importa com as saudades que elas sentem de casa sem poderem voltar atrás.
Ouve a autoridade que oprime o espírito humano, a verdade que é varrida para as sarjetas.
Ouve igualmente os pervertidos que espiam jovens para se masturbarem atingindo desta bizarra forma a satisfação.
Ouve os corações destroçados das pessoas que respiram morte, que vendem a vida e deixam as sobras nos transportes.
Ouve como a insanidade cresce a cada minuto, as doenças aumentam, e o amor diminui.
Ouve a inveja dos egoístas que apenas se contentam com o teu infortúnio.
Ouve, não estás contente de estar aqui deitada comigo?

Texto: JC
Imagem: Google

quarta-feira, 29 de julho de 2009

Porque me fizeste nascer?


Fui nascido na penumbra de uma curiosa.
E quão difícil é nascer. Se o soubesse teria recusado a tal, e permaneceria para todo o sempre no teu doce e aconchegado ventre de mulher, minha mãe. Aí senti-me sempre seguro e protegido. Era eu, o genuíno, o verdadeiro embrião que se recusava a germinar.
Que doloroso é nascer, minha mãe.
Devias ter-me sussurrado, qual mundo me aguardava. Sim! Eu sempre te ouvi.
E quando tu prenhe, eu te ouvia cantar a “Senhora do Almortão”, sentia-me calmo, embalado e adormecia ao som da tua voz terna e confiante.
Mas devias ter-me alertado, como é complicado vir ao mundo.
Sabes mãe, o tempo é como um predador que corre atrás da sua presa e quando dei por mim, a lei da vida fez-me ver que já não era mais aquele menino que acariciavas e protegias.
Tornei-me homem rápido, ou melhor, um menino mais crescido, porque sempre segui fielmente os teus mandamentos e a minha essência ainda sonha e acredita neles.
Mas, quando neste menino surgiram os primeiros cabelos brancos, olhei por cima do meu ombro, e a saudade alagou-me o coração.
Devias ter-me dito que é difícil nascer, complicado crescer e insuportável viver.
Ainda ontem lembrei com certa nostalgia, aquilo que me dizias “filho, nunca cobices o que é dos outros.” Mas uma coisa é certa minha mãe, apenas tu me o dizias e ainda hoje me o dizes de modo diferente, mas eu continuo a compreender-te.
Sabes mãe, não vejo ninguém fazer o que me ensinaste. Não! Verdade! Sabes, não é este mundo que esperavas, que desejavas e enfatizavas.
Neste, no real, o caminho é longo, a estrada parece não ter fim, a jornada cansa. É uma estrada muito longa que me esgota cada dia que a percorro.
Sou uma flor fora de estação, uma árvore com as raízes soltas da terra que a alimenta, um planeta sem órbita á deriva em busca de um lugar, uma estrela que ofertou o seu brilho, enfim um homem perdido neste tempo e neste espaço.
Se eu pudesse perguntar ao tempo se ainda tenho tempo de esperar, de sonhar e de amar sem o tempo me levar? Mas, o tempo não tem tempo de esperar, de sonhar, nem de amar só tem tempo de passar.
E com o seu passar, vestiu-me uma máscara de desilusão, que tornou os meus olhos tristes.
E tu sabes que depois de tristes surgem e escorrem lágrimas quando vejo crianças que sofrem sem culpa, que morrem sem compaixão, doentes sem perdão, pergunto-me...
Porque me fizeste nascer?


Texto: JC
Imagem: Google

segunda-feira, 27 de julho de 2009

Faz-me bem



Faz-me bem agora antes de me deitar imaginar-te, onde estarás?

Talvez a tomar um café sozinha num qualquer local, ou então em casa perdida a fazer zapping na tv enquanto enganas o sono que já chega...

Faz-me bem agora antes de me deitar imaginar-te, ver-te assim com um olhar incompreendido repleto de aragens vãs, com as mãos pousadas ao longo do corpo fraco...ver a tua boca seca...

Faz-me bem saber que estás sozinha a sentir a minha falta mas, ao mesmo tempo fico com vontade de ir até aí, encostar o meu corpo ao teu para me abraçares, ficar a beijar-te até o sono chegar e depois ir deitar-me contigo... dormir junto a ti nessa magia tão nossa.

Faz-me bem agora esta lembrança antes de adormecer em paz, antes de deixar o corpo tombar-se para o lado e meter-se ao acaso pelo mundo dos sonhos.


Faz-me bem!



Imagem:Google

quinta-feira, 23 de julho de 2009

Só sei que nada sou e serei



Quero cercar-te em mim, para acariciar a tua pele, porque te desejo. Adoro sentir o teu perfume fresco e calmante quando nos amamos.
Desejo sentir o teu rosto no meu, e ouvir a tua voz que sussurra nos meus ouvidos.
Sentir a tua pele colada à minha, e ficar assim, abraçado na penumbra a falar dos nossos sentimentos, das nossas emoções.
É bom deixar que as nossas mãos nos explorem até a epiderme se arrepiar com lentidão, até a calma virar desejo.
Sentir o toque dos teus lábios nos meus como um fogo ardente que consome o meu âmago.
Necessito abraçar-te e não me sentir perdido na solidão que me consome.
Despir-me e deitar-me sobre o teu corpo como um simples hóspede, como um tempo passado, uma lembrança vaga, uma saída delineada. A minha pele dorme e mora nas tuas mãos. Sobre a memória do meu corpo persiste ainda a memória das tuas mãos a devassar inconfessáveis anseios, gemidos que ferem o perfeito silencio. A tua presença pressentida desarruma a nossa rotina.
Quero achar-me um dia. É inevitável. Julgo que é inevitável deixar de me encontrar, num ser que tem tanto para dar!
Mas, quem sou eu? Eu sou quem sou, e sou como sou. Tenho percorrido caminhos longínquos que o destino me tem reservado.
Confesso ser forte por fora na minha aparência, fraco por dentro, mas com paciência.
Mas não me deixes só porque não posso viver sem ti e o meu coração será apenas pó.
Por favor, preciso de ti. Olha para mim, não vês que sofro?
Tu és aquela luz que me ilumina os caminhos por onde ir, a vida certa, perfeita e me transmites a confiança e a razão para não me matar.
Desejo-te quando não te posso ter!
Odeio-te quando mais te desejo.
Quando a neblina da tristeza me invade, as palavras choram, as lágrimas caem. São sentimentos que no coração moram e que quando do coração saem, são palavras que lacrimejam.
Quero ser o que realmente sou, ou ser o que realmente não sou?
No entanto ser o que sou é excluir aquilo que não sou.
Então, como poderei saber que sou aquilo que não sou, se poderei sê-lo?
Só sei que nada sou e serei.



Imagem: Google

quinta-feira, 16 de julho de 2009

Destino?



Penso, torno a pensar, e desde sempre pressinto que só pertenço aos sítios onde não estou e que só me entrego a quem não posso. NÃO? É um assunto para de novo cogitar até que a alma me doa. A minha vida desconchavou-se em mil cacos. Raramente me descubro.
Até a noite tomba onde não me encontro. É como uma anedota contada por cima de muitos copos de Super Bock, no fim de uma tarde estival.
No entanto quando a noite arrolha a tarde, uma brisa fria obriga ao casaco e, depois de estender o olhar uma última vez sobre Lisboa e o Tejo é hora de voltar a casa. E quando chega a hora, é muito mais fácil quando conhecemos tudo, sabemos o caminho, observamos os sinais e a estrada não é enganadora, mas a viagem tem mais sabor quando cada encruzilhada é uma incógnita e o destino, um indecifrável enigma.
Mas dizem que a noite pode ser assim muitas coisas, pode ser um castigo ou pode ser um bálsamo. E sempre que me vejo nessa incerteza nocturna, eu afasto-me das luzes e corro, corro muito pelas artérias de laje dura, corro a noite toda às voltas tentando encontrar-me.
Mas eu existo? Já não sei. Estou consumido. Dei-me sempre mais do que podia.
Antes, a solidão vergava-me, mas com o rolar do tempo povoei-a com alguns sorrisos, com uns pequenos e acanhados gestos de cabeça, que aderem à mente, e me dizem que ainda existo, que continuo vivo e que ainda pressinto o coração a afoguear aqui dentro do meu peito. E quando o silêncio se cala de vez, ele bate e eu oiço.
É tudo o que podemos ganhar quando se aprende a estar sozinho, tem-se tudo e não se possui nada.
Se morresse agora não deixava nada, porque bebi toda a minha sede, esvaziei-me, devorei noite após noite com o amargo que têm as coisas antes de nos pertencerem.
Sou um corpo que se evita, um homem cujo nome se arruinou no trilho do tempo.
Penso mesmo que o meu corpo vive hoje dentro do espelho, onde se perdeu o teu. Percebo que troquei um futuro mais que perfeito por um presente indicativo, só não entendo o que foi obra do destino, ou aquilo que foi intencional.
Julgo que foi, é e será sempre a incógnito da vida que nos conduz. A sorte é não lhe conhecermos o trilho.




Imagem: Google

terça-feira, 14 de julho de 2009

Oásis de amor



Quero beijar os teus seios de sereia, quero deslizar as minhas mãos no teu corpo de Deusa, como se fosses uma obra de arte feita pela mão certeira dum escultor, como se fosses barro nas minhas mãos de artesão.
Quero que me faças suspirar, de paixão, desejar, suplicar por mais, enfim gritar o meu nome quando estiver em ti.
Quero que sejas a minha montada e que me leves a percorrer o teu corpo como se ele fosse todo meu.Quero-te ouvir gritar, olhar o teu rosto em êxtase, penetrar nos teus olhos que envolvem os meus com os tentáculos da paixão.
Quero ser teu hoje, agora, e perder-me num oásis do deserto do teu corpo, onde poderei finalmente saciar a sede que me emprenha o meu ser.

Texto: JC
Imagem: Crystal

quinta-feira, 9 de julho de 2009

Amor Reflexo


Quando me olho ao espelho vejo um espectro… sem vida própria, sem traços de gente.
Por vezes não me suporto. Não me quero ver e cerro os meus olhos marejados de lágrimas que não vivem. Estão extintas de tédio, pois surgem-me diariamente.
E tal como estas lágrimas, o descontentamento invadiu-me a existência.
E o tempo não sara os estigmas do amor… principalmente se sopra e nada nos verbaliza. Passa por nós como um tornado que nos destrói a vontade, o querer… e eu fico prostrado como que atingido por uma abulia.
Por que é tão difícil fazer-te sair da minha vida?
Quando mais quero esquecer, mais as coisas que me rodeiam fazem recordar-te.
Ao matutar nos anos que já nos conhecemos e por aquilo que já passámos, as lágrimas caiem-me pela face como água límpida duma copiosa cascata.
Certos dias doem-me os olhos do pensamento, a cabeça de muito querer ver como te via.
Não gosto, nem quero pensar, que tudo foi em vão, porque sei que não foi.
Mas então, porque acabamos sempre por pôr um término ao que temos?
Sou insuportável, tu és intolerável. Existe entre nós uma sinestesia de corpos e pensamentos que não destrinçamos, com medo de deixarmos de existir. Como se eu te dissesse ao ouvido inspira, agora expira; como se me ensinasses tudo aquilo que sou e levei anos a edificar.
Não sou ninguém sem ti; tu recusas a sê-lo sem mim. Precisas de mim na mesma proporção em que preciso de ti.
Sei o quão doloroso é tentar esquecer-te e tentar apagar-te da minha vida... já o tentei uma vez, duas, três… não consegui e o resultado foi o que sabemos.
Não te quero apagar integralmente da minha vida... comportas ainda todas as recordações, das quais não quero abdicar.
Mas estas lembranças são demasiadas, e vão-me roendo por dentro.
Já, por várias vezes, pensei que és como um vício... e volto a considerar essa ideia.
E como viciado que sou, não consigo desintoxicar-me de ti... cheguei a um ponto em que te encontras completamente impregnada em mim, na minha mente, no meu sangue, no meu ser...
Nas minhas veias não corre sangue, circula ácido que me queima a alma, que me incendeia o coração num fogo-fátuo porque o sinto em putrefacção.
Já o não sinto dentro de mim, entreguei-o por vontade, por paixão. Sinto-me um infecundo da paixão, quiçá da alegria, imaginação ou até de mim.
Magoo-me tanto.
Magoei-te a ti.
E pior ainda, magoei outros.
Não sei que seria o mais adequado a fazer agora... se ficar, ou partir para outra...
Uma parte de mim quer isso... mas a outra parte agarra-se de unhas e dentes a ti...
Porquê?
Diz!
Não sabes!
Não sabes, mesmo?
Eu também não!
E te tanto tentar perceber aquilo que sou, sinto cansaço de tudo.
Principalmente de mim!
JC
Imagem: Google