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quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Meretriz


As pernas dela hoje estão quietas. São esguia como raízes apodrecidas que se agarram ainda à terra. Em sossego. Já não são livres.
O corpo ostenta marcas que contam a sua vida. Um corpo apenas que se usa massacra, e deita fora. Um corpo pervertido! Um corpo que fora belo e elegante como um modelo de passerelle. Agora, sobra um bocado de carne que mente quando geme, que chama de amor a todos os rostos que se atravessam com alguns pêlos na cara.
Agora, as suas pernas abertas são como dois campanários altos e sombrios, onde os gestos lânguidos dos minutos que percorrem os meandros do seu corpo, as entranhas húmidas do ventre, o bafo quente da boca.
As pernas dela, há muito tempo que não passeiam, que não correm, que não dançam. Já não se lembram do toque suave dos dedos de quem a amou dos lábios quentes que as beijavam com o ardor da paixão.
Presentemente, as suas pernas abertas são apenas testemunhas de línguas hirtas e duras, como se fossem uma matéria densa e viva, que penetra a boca quente e ávida de outro corpo, como um soluço de falso desejo que vai crescendo até se tornar violento e imperativo.
As pernas dela, já não dançam instigadas pelos sons melódicos, em frente à parede multicolor, bem desenhadas pela forma dos saltos altos que lhes vincavam a forma e a formosura.
Hoje, aquelas pernas são fantoches de diversão. Apetrechos colocados para o lado.
Aquelas pernas já não são pássaros, voando nas retorcidas calçadas de Lisboa em direcção ao amor.
As suas pernas já nem conseguem ser o que, afinal, são: pernas.
Actualmente, as pernas dela apenas escoltam as mãos frenéticas que apalpam os corpos, incapazes de sossegar dentro dos segundos, porque as mãos são extensões reais dos sentimentos do desejo enganador. Os corpos perfazem um ritmo compassado que ora se estanca para contemplar o olhar do outro, ora se apressa por não ver mais nada.
Já não fazem o que o que as outras fazem e, apesar de parecerem ainda gaivotas que mesmo tendo asas, não conseguem voar. São apenas silêncio. Um silêncio suspenso do seu corpo. Um silêncio comedido. E ela sorri-lhes, com os seus olhos caídos sobre elas: porque, na verdade, o silêncio é já a sua pele, é já o seu espírito.
Nas palavras ditas, proferidas, em surdina, com a voz quase rouca a sair de dentro da garganta, uma sensualidade profunda que rasga os segundos. E que incita e entusiasma. E que seduz e aprisiona. A inevitabilidade tamanha faz os corpos parecem unos e nunca mais se soltarem - nunca mais, enquanto ali estão.
De pernas abertas, finge que o sente. De pernas abertas, no seu interior sente-se dormente. Já não é capaz de sentir nada.
No compasso de espera entre um cliente e outro, acende um cigarro na esperança de ter um momento só seu, onde se possa encontrar a sós com o seu pensamento. Se isso ainda faz algum sentido.
Sentido, apenas a nudez mística do que faz, e a fonética e a semântica quando no final da batalha corporal ainda lhe chamam: “Amor”.

4 comentários:

marta marques disse...

gosto muiot deste texto....vejo pinturas em cada frase!!!

p a r a b e n s

continuando assim... disse...

gosto :)

ou desamor .. será mais desamos ..

bj
teresa

Rosy disse...

simplesmente amei este texto...
uma boa continuaçao,
beijinhos

Luz disse...

Fixamos o olhar na fotografia, fechamos os olhos e recuamos no tempo..., ainda que hoje exista o que aqui é descrito.
São muitas as imagens que podemos imaginar, mas uma é muito presente, a de uma vida sem vida, de uma vida sem amor, que não ama, não amou..., nem foi algum dia amada..., apenas desejada, o desejo da carne, nada mais.
Meretriz, mulher que nunca se soube amar, nem deixar amar, não amou...

Gostei do texto, foto muito bem escolhida.

Beijo iluminado de vida