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sábado, 5 de dezembro de 2009

Fantasma de mim


Corria célere o ano de 1968. O mês de Novembro tremia com frio e com ele a escola primária da minha aldeia tiritava com o nevão das últimas horas.
O manto branco cobria parte do chão. As primeiras crostas de neve encostadas à berma faziam um improvisado muro branco.
Cai neve no campanário da igreja. Cai neve no meu corpo em flocos de saudades.
Nas árvores à minha frente, o gelo fez crescer as estalactites que derramam água vidrada, gelada, colorida pelos faróis, de carros que perdidos, vagueavam na estrada branca, dando a sensação que velas iam clareando o caminho. Todas estas sensações de momentos ganhos no regelar dos ossos são como espasmos de vontade inata de conquistar o mundo.
Este manto alvo e gelado desce a encosta revestindo a serrania, onde nem as lagoas escapam da brancura.
Abeirei-me da escola.
A porta está encostada, reconhece-se o espaço ali a convocar-nos.
Entrei sorrateiramente, olhei a sala escura. As janelas estão fechadas, a atmosfera é pesada, o quadro preto riscado ao de leve pelo giz alude que estou num templo de estudo. Um espaço sagrado da sabedoria que muitos procuram e nunca vão ter.
Não se vislumbra vivalma. Falsa conclusão. Após os meus olhos se adaptarem à penumbra, encarei com um rapazola sentado no centro da sala. Parecia um espectro preso a uma velha e desengonçada cadeira.
Aproximei-me mais um pouco pois a débil luminosidade podia atraiçoar-me. A custo olho as feições de miúdo enternecido que bem pode esconder um velho de espírito.
Escreve num bloco de capa preta, como se não houvesse amanhã. A mão direita riscando incessantemente a folha ebúrnea. Eram imensas as folhas salpicadas de azul-escuro, uma tinta que carrega o peso da vida, cheia de intencionalidade, de devaneios, os devaneios são a objectividade do que nos apetece, do que nos assola, aquele sujeito sentado na cadeira do centro pensa, sente, arrepia-se, comove-se, e isto é o que ele grava no caderno, não lhe peçam para inventar sentimentos, pedir-lhe isso é pedir que minta, que renuncie à sua própria vida. Aproveitei para espreitar por cima dos seus ombros, saber que coisa tão afincada concebe com toda a sua concentração. Apesar das minhas movimentações, nunca deu pela minha presença.
No topo da folha, em realce, “Se o arrependimento matasse…”, a lengalenga que a professora da primária certamente lhe meteu na cabeça. Fiquei curioso em questionar o que tanto o apoquentava. Mas por receio não o fiz. Mas, sei que responderia asperamente:
- Tudo!
Mas que tudo? Um rapaz que tão jovem parece, o que lhe faltará?
- Falta-me tudo!
Quantos de nós não sofremos deste “Falta-me tudo!”?
Tu, não? E tu?
Sim! Claros, todos já sentiram esta dubiedade.
Sem nada que o fizesse prever, uma tomada de consciência rebenta com a bolha da criatividade que o envolve, e soltam-se lágrimas das suas vistas que gotejam suavemente como um fio homogéneo e incolor, purificando o tumulto, a este pobre rapaz que por casualidade não foi brindado para assinar o tratado das paixões das almas.
Certamente que está ainda para vir a sociedade que agrade a todos, que pense nisso quem tem tempo para utopias, para sonhos desmedidos e hiperbólicos, porém que seremos nós sem os sonhos a não ser cadáveres conscientes, gente viva com coração de morto? Pelo menos quem se arrepende vive.
Mais uma vista de olhos no caderno preto do enigmático:
- As minhas desculpas aos meus sonhos imperfeitos. As minhas desculpas a todos os que magoei e vou magoar.
Da mesma forma irreflectida levanta-se, abre as janelas do mundo, e respira o ar maligno do arrependimento.
Senta-se mais uma vez, e mais um vez, na folha de papel:
- Como estou arrependido mãe.
Arrasta a cadeira de rompante, enquanto se dirige ao velho quadro. Trespassa como por sortilégio a ardósia negra, fazendo-o vibrar num alucinante e estridente som que se propaga pelo oco da sala. Observei estupefacto a tatuagem no negro do quadro vincada em linhas brancas de desilusão.
Muitos anos já correram, imensos nevões fustigaram o campanário da igreja, muitos flocos de neve escorreram pela minha face afogueando-a de saudades.
Hoje, em pleno mês de Novembro penso que esse rapazola era eu. Que transpus, através do quadro, para o presente os medos de criança, os fantasmas que sempre pressagiei.
- As minhas desculpas a mim mesmo.

4 comentários:

Carla disse...

Olá Sonhador, que delícia este texto, que sinestesia!...Muito lindo...Quase revi-me sentada ao fundo da sala!Obrigada pelo momento de sensações tão sublimes!
Bjs

continuando assim... disse...

lindo ler-te :) ... não te desculpes de nada... comoveu-me

um beijo
teresa

Susana disse...

Olá boa tarde,
obrigado pelo misto de sensações especiais que me prorpocionou...Texto lindo, encantador, momento delicioso.

Beijinho

Rosy disse...

Ola :D
Está lindo o texto mesmo.
Mas o que mais adorei foi o facto de relacionar o quadro com o presente, como se fosse uma maquina do tempo, e também de omitir que o rapazinho que aparece no centro da sala é voce mesmo.
Há momentos assim, em que tudo nos parece atormentar.. nos oprimir!
É necessário estar presente em nós sempre a força necessária para persistirmos no positivismo, por mais complicado que seja.
beijinhos