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sábado, 10 de abril de 2010

Eis a razão pelo qual me sinto, ninguém.


Hoje não me apetece filosofar sobre a transcendência dos egos, sobre mentes controversas, amizades coloridas ou descoloridas, pálidas ou seja lá o que for!
Cansei-me de planar a grande distância da realidade, e quero mergulhar na vulgaridade. Porquê? Quiçá no fim do texto encontrem a resposta.
Para começar vou praguejar: Que raio de tempos são estes, que nos humedece os neurónios e nos deixa em curto-circuito?
Dai-me paciência, meu Deus. Deus! Mas as minhas relações com a divindade não andam grande coisa, por isso corto o Deus. Fico só com a paciência, ou antes sem ela…
Isto tudo para dizer que não me sinto sozinho, sabes? Sinto-me isolado.
Tenho nos ombros uma vida, sentida e muito sisuda. Hoje pergunto-me se valeu a pena?
Para que estarei aqui a gastar palavras? Se quando falo não me escutam?
Quero lá saber, falarei com a minha companheira, que me segue para onde vou e não vou. Seja dia ou seja noite. Necessito desabafar. Preciso que alguém escute a minha dor, a minha indignação. Perceba a crueldade da nossa existência. Entender o quanto somos insignificantes. Atingir o verdadeiro sentido de existir.
Mas que digo eu? Para que me estou a cansar com frases que ninguém irá ler, com pensamentos que não serão sentidos, palavras que não querem ouvir.
Julgo que a semana passada coloquei uma flor a tingir um frasco de água… a cor é quase imperceptível, embora roce o afogueado, como se me avivasse a memória dos sinais de perigo.
Parece lamentar-se em sórdidos silêncios do meu desleixo, ultimamente. Recordei com saudade a orquídea que colhi num fim de tarde fria e que guardei com todo o carinho e amor, num jarro, num recanto escondido do meu coração.
Há quanto tempo não mudo a água à jarra?
Que vergonhosa patetice! Irá certamente murchar.
Corro como louco todos os cantos do meu coração à busca dela. Quero mudar-lhe a água.
O silêncio principalmente hoje dói-me e não tenho com quem desabafar.
Liguei o rádio na M80. A música soltava-se com o mesmo fervor do meu coração, em busca da “esmeralda escondida”.
A Ilídia Maria, que por acaso conheço, porque foi minha colega de liceu, berrava “telepatia” contra os meus pobres tímpanos. Quando a convenceram que sabia cantar, mudou-se para zona fina e mudou o nome. Lara Li é mais in!
Desesperado por não encontrar a minha flor, apesar da telepatia, peguei num copo que enchi de Jack Daniel’s. Escolhi este porque é destilado no Tennessee e por isso deve ser bom. Apenas isso. Ao fim do segundo copo, a vista turva e a língua a esbarrar nas palavras voluptuosas e controladas pelo álcool, ao atirar um “bom dia” a um vizinho.
Porque será que o álcool nos desinibe os sentidos e nos aveluda a alma com uma auto-estima, inebriante?
Eu falo com a orquídea, sabias? E ela falava-me tão docemente, até que se fechou em botão.
O amor e a amizade são uma flor frágil e por vezes desleixamo-nos. Deixamos que a água pútrida petrifique as recordações boas e as reduza a um punhado de coisa nenhuma.
Sento-me numa cadeira tal profeta desmoralizado.
Apetece-me de novo praguejar: Raio, porque será que o álcool e os meus olhos, não se dão?
Penso que só os animais ditos irracionais conseguem vislumbrar os verdadeiros profetas. Nós, nem os pressentimos, e passamos-lhe por cima nesta correria desenfreada feita de rotinas, que faz dos nossos dias, autênticos cromos repetidos, onde nada acontece que nos ajude à inovação. Mas, nem um cromo já colecciono.
O rádio continua a tocar na tentativa de me absorver. Agora debita alguns decibéis de “Everybody Hurts” dos “REM”.
“Well, everybody hurts sometimes, everybody cries…”
Não te isoles. Tapa os ouvidos e não escutes a estrofe de gritos, lamentos, suspiros, tristezas e até sofrimentos, queria somente poder abraçar, amar... Vem, preciso do teu cheiro, dos teus braços eternos onde adormeço os meus medos ancestrais.
Não escondas as tuas pétalas de mim, minha orquídea selvagem. Dá um tempo aos minutos. Dá uns segundos às estrelas que foram dormir e dá a tua existência à minha loucura.
Porque alteaste entre nós essa muralha invisível que apenas o olhar da alma consegue transpor. Há um estranho silêncio na tua voz.
É nesse silêncio esquivo que eu te encontro e te falo sem te ver, tal como o vento o faz quando rompe atrevidamente pelas brechas das janelas do meu quarto.
Que pateta! Achas mesmo que alguém… escuta?
Sabes, também não importa, porque sei que embora o negues, as tuas pétalas aprumam-se de cor para me ouvirem.
Por favor deixa-me encontrar-te para que te banhe com a água das minhas lágrimas e assim ajudar-te a ficar viçosa. Não murches a minha vida.
Fica a promessa que quando te encontrar te amarrarei com correntes roubadas à lua.
Ouvirei as palavras que quisemos dizer, mas que não dissemos, experimentarei, os amores que compusemos no lirismo dos nossos sonhos, sem pressa.

Não devemos ter pressa. Sabes? Não vale mesmo a pena termos pressa. Quem sou eu? Quem és tu? E ele? E ela? E aquela multidão que corre para conseguir um lugar sentado no comboio?
Certamente muita gente, seguramente ninguém.
Porque a premência que tenho agora é que o tempo aniquile o próprio tempo.
E sabem porquê?
Hoje, que não me apetece filosofar, queria antes rezar, mas já nem rezar sei.
Hoje o meu colega A.N. foi vítima de um AVC e está em coma profundo. Aos vinte e oito anos de idade foi embusteado pela seriedade da vida.
Casou há cerca de um ano e a mulher carrega no ventre, o fruto de uma união a dois, com sete meses.
Não fui capaz de explanar este acontecimento, sem ter viajado nas asas do sonho, porque em apenas dois dias, sei lá eu, se por falta de água, vi fenecer um cravo e murchar uma orquídea.
A vida tal como o amor deviam permanecer imarcescíveis.

Eis a razão pelo qual me sinto, ninguém.

Escrito em 08-04-2010

PS: A.N. faleceu hoje 09-04-2010 às 23:12 horas.



Amigo, Paz à tua alma.

8 comentários:

Sonhadora disse...

Meu querido amigo
Sem palavras para comentar o teu belissimo texto...porque no fim, é a tristeza.

Beijinhos
Sonhadora

Sonhadoremfulltime disse...

Deixo aqui os meus agradecimentos a todos os que têm lido e comentado os meus textos e a quem peço desculpa por não estar tão presente quanto desejaria, mas a vida, às vezes, obriga-nos a seguir outras prioridades que não aquelas de que gostaríamos.
Todavia tenho acompanhado na medida do possível os blogues que aprecio, embora por vezes não comente.

Obrigado

G. disse...

Lamento profundamente a sua dor! Perder um amigo assim, não é fácil, sobretudo para continuar a encarar a vida....
Um abraço forte para si e para a familia do seu amigo!

catwoman disse...

Não sei o que te diga meu amigo, ver morrer um amigo ainda por cima com essa idade é uma tristeza, nada do que possamos dizer, pode aliviar a dor dos que o amam.
Bjs.

Menina do cantinho disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
DoceAroma disse...

Lamento imenso, aqui está uma hora em que me faltam as palavras, deixo-te a companhia do meu sentido silêncio. Um beijo ternurento.

Su disse...

Palavras negras, tristes, ruidosas, cruas... e, ainda assim, um belo texto.
Envio um beijinho apenas, já que nada há que possa dizer.
Susana

sonho disse...

Pode não ajudar muito...mas pensa que o teu amigo só partiu antes de ti...e que um dia se vão encontrar...até lá ele estará num lugar bem lindo a cuidar dos que ama...
A orquidia é uma flor muito linda:)
Beijo d'anjo