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segunda-feira, 1 de março de 2010

Conversa em Braille



Perdidos no tempo, num dia de Fevereiro, qualquer um. Um apartamento nos subúrbios de Lisboa. Um apartamento qualquer, em qualquer subúrbio de Lisboa.
Uma vida. Pode ser qualquer vida… Um casal. Qualquer um…
Será que alguém que me lê, qualquer um, se identifica com esta conversa?



Ela: Nós? Nós estamos comodamente casados sem…

Ele: Ias dizer sem paixão, mas não acabaste a frase. Lançaste a ravina para me atiçares o cão do teu desespero? Mas nem esboçaste a intenção de te lançares. Porquê? Por acordo?
És uma mulher difícil, uma ponte fugida de mim. Chega-te mais, até à boca de mim e vira-te, assim… de frente.

Ela: Eu? Uma mulher difícil? Essa é boa! Sou apenas uma mulher, não um teorema! Sim, aborreço-te como um borrão de rancor, brutalmente a apartar os nossos corpos, tornando a cama num golpe de frio. Claro que te aborreço, como um hábito ou um vício aborreço-te! Aborreço-te?

Ele: Agora que a sineta da pergunta tocou estrepitosa como solavanco sucinto tenho alternativa?

Ela: Não, não tens. És tu que tens a chave, vais abrir apenas um alçapão a céu aberto.

Ele: Não, desta vez a resposta não pode continuar à espera. Não há entendimento possível entre o eu que te ama, e o eu que precisa arrancar-te da alma.

Ela: Atrever-me-ei a tanto? A confessar que não sei amar? Queres tudo, é isso? Tu queres tudo, incluindo a fúria.

Ele: E a paixão não quer tudo? Talvez o problema é que acreditas na paixão como um auto-de-fé.

Ela: Pois acredito. Se não acreditasse estaria aqui a teu lado mesmo que desentendendo-te como desentendo? Viver o que vagarosamente morre?
Sei que vives distraído de mim. Não perguntas, não inventas desculpas. Nada!

Ele: Não pergunto? Desejas-me? Ou optas ser desejada?

Ela: Basto-te como ampola de soro que te vai nutrindo quando me possuis. Não me bastam as tuas mãos de compromisso, o teu sexo de compromisso, a tua boca de compromisso.

Ele: A mim simplesmente basta-me sem paixão. A ti não. Queres o absurdo. Queres a perfeição não percebes. Mas, a perfeição não existe.
Chega-te. Cinge-me mais, assim. Para não me sentir só. Para não te sentires só. Para partilharmos cegamente o inóspito. Chega-te mais.

Ela: Mas, vale a pena?

Ele: O casamento?

Ela: Sim.

Ele: É um nada, uma raiz aberta, intacta na sua inutilidade, que me cansa. Todos estes anos. Preservá-lo é mentirmos sobre a própria mentira.

Ela: Queres que comece de novo a recordar-te? Lembras-te daquela tarde em que nós… Eu a menina que te mirava, que te beijava os teus olhos azuis? E tu, o dócil jogador de basquetebol. Claro que nunca percebeste! Eu era os teus olhos azuis.

Ele: E tu lembras-te do teu arrojado decote? Também eu soube logo, da primeira vez que te vi, que jamais voltaria a ter semelhante visão. Relembro que para além do teu rosto não me perguntei quem eras. Um nome, e logo um corpo que me tomou nos braços. Um corpo cuja história escapava à minha. Um corpo que me tomou nos braços um corpo que se deixou tomar num apartamento nessa tarde.

Ela: Chega-te. Chega-te mais. Não! Não te vires. Não acabou tudo, mas algumas coisas extinguiram-se. Por vezes ainda falo contigo dentro da minha cabeça. Invento-te ainda. Continuo a inventar-te. A esperança é algo que inventamos. Uma ficção, e uma falha. Aquela tarde foi a nossa vida exactamente como poderia ter sido.

Ele: Isso é uma acusação a mim mesmo? O que queres que te diga? Acuso-me do que há em mim de amante exilado? Não. Peço-te, isso não. Deixa-te estar assim, não me tires a possibilidade de ser náufrago. Enrola as tuas pernas nos meus braços. Não quebres a única coisa familiar nesta casa que é o nosso corpo.

Ela: O teu amor… o teu amor, que digo eu? O teu desejo por mim não é um desejo. É uma guerra desmantelada. Um protesto contra qualquer coisa. Sou a tua desilusão? Queres jogar às realidades?

Ele: Talvez. Queres que me vá embora para poderes inventá-las? Será isso que queres? Será isso o que eu quero? A esperança é o último reduto, como uma trincheira em fogo. Inventamos. Queres que te beije? A esperança é mesmo uma falha. Vou-me embora. A vida é assim e não há outra. Só reconheceria totalmente intolerável que me dissesses: desisti de tantas coisas por tua causa e não valeu a pena…

Ela: Não me pareces assim tão vulnerável mas, não! Não digo. Sei que terás saudades minhas enquanto continuares a inventar-me naquela tarde em que nós… é estranho o tempo… longos anos cavalgaram em minutos e há minutos que se alongam até parecerem horas.

Ele: Como os minutos em que crias empatia com uma personagem fictícia?

Ela: Sim? É o que eu sou para ti? E agora que começo a vestir-me, o tecido do meu vestido é a última página do livro?

Ele: Inferi no horizonte de forma demasiado rápida o recorte da ilha a que nos dirigíamos ver-te agora alisar o cabelo é um agradável interlúdio. Uma sutura de arquipélagos. Um casamento que falhou, como se o mar se partisse. Deixa-me tocar-te. Deixa-me escutar os meus dedos pedregosos ainda tocar-te.

Ela: Para me converteres em personagem de ficção de um livro em Braille? Não! Não basta estares nu para poderes amar-me!

9 comentários:

Angel in the dark disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Sonhadora disse...

Meu querido sonhador.

Nem calculas o que o teu texto me disse.

Sim, aborreço-te como um borrão de rancor, brutalmente a apartar os nossos corpos, tornando a cama num golpe de frio. Claro que te aborreço, como um hábito ou um vício aborreço-te! Aborreço-te?

Eu nem comunhão de corpos tenho.
Como gostei desse texto.
Ainda por cima hoje...que foi um daqueles dias.


Beijinhos com carinho
sonhadora

continuando assim... disse...

convite para a seguir a história de Alice
lá no ...continuando assim...


bj
Teresa

Ana Isabel disse...

É um prazer ler os teus textos.

E tens sentido de humor...


Um abraço.

Ana Isabel

DoceAroma disse...

Os anos quebram um encantamento que se destroi e colapsa. Tocou-me embora viva num casamento perfeito na sua própria imperfeição... Há coisas que morrem e se dissipam com o passar dos anos, é verdade, mas por isso mesmo há que construir outras e tentar crescer numa mesma direcção sem perder o rumo de nós mesmos. viver em conjunto, sonhar em conjunto sem esquecer que somos dois individuos. É fácil aborrecermo-nos dificil é que isso não aconteça talvez esse seja um dos desafios da vida a dois.
O teu texto está simplesmente magnifico adorei a escoha das palavras e o título! Parabéns predeste-me o olhar e tocou-me a alma.

DoceAroma disse...

Obrigada pela visita... e a resposta é sim podia ser a continuação da tua conversa em Braille... desculpa se ousei fazê-lo

Beijo

Rosy disse...

Ola..
obrigada pela visita ao meu espaço..
li os seus textos e gostei muito..
bem,.. numa relaçao kd se perde a paixao ou se entrega á montomia.. as coisas tornan-se mais complicadas..
a magia deixa de reinar e por ai abaixo...
bem..
uma boa continuação..
beijinhos

Luz disse...

Querido Sonhadorft,
Recordo como se fosse hoje quando partilhaste este texto e,desde logo lamentei que assim fosse esta a realidade. É a realidade de muitos como ambos o sabemos, no entanto, é uma realidade que recuso. Quando assim é, antes estar só, ao invés de conversar em braille quando o podemos fazer de outra forma.
Mas há sempre quem prefira manter-se no já conhecido mesmo com conversa em braille...
É uma pena, porque algo se perde, por vezes, a vida toda...

Bjo de Luz

elisa disse...

há conversas que se têm no escuro que são assim, ainda que as histórias sejam outras mas são assim... não vou dizer que me identifico com, mas sim, há zonas adjacentes, alusões, um ambiente, uma dinâmica... convido-te a visitares-me também em www.wordpress.lisadeoliveira.com (eu vim através do blog «por um novo amanhã». Até sempre.